Irmãos do Sagrado Coração
Um plano para ressuscitar – uma meditação
23/09/2020 - Um plano para ressuscitar – uma meditação
           
            De repente, Jesus saiu ao encontro delas e as saudou dizendo: Alegrem-se (Mt28,9) É a primeira palavra do Ressuscitado após Maria Madalena e a outra Maria descobriram o sepulcro vazio e se depararam com o Anjo. O Senhor veio a seu encontro para transformar suas dores em alegria e para consolá-las em meio às aflições (cfr. Jr 31,10) é o Ressuscitado que quer ressuscitar, para uma vida nova, as mulheres e, com elas, a humanidade inteira. Ele quer que comecemos já a participar da condição de ressuscitado que nos espera.

            Convidar para a alegria pode parecer uma provocação, e inclusive uma piada de mau gosto diante das graves consequências que estamos sofrendo por causa da COVID-19. Não são poucos os que poderiam pensar, como os discípulos de Emaús, como um gesto de ignorância ou de irresponsabilidade (Lc24,17-19) Igual às primeiras discípulas que foram ao sepulcro, vivemos rodeados por uma atmosfera de dor e de incertezas que nos levam a perguntar-nos: “Quem tirará a pedra do sepulcro?” (Mt16,3) Como faremos para levar adiante esta situação que nos alterou completamente? O impacto de tudo o que nos aconteceu, as graves consequências já relatadas e vislumbradas, a dor que o luto por nossos entes queridos nos desorientam, nos angustiam e paralisam. É o peso da pedra do sepulcro que se impõe frente ao futuro e que ameaça com seu realismo sepultando toda a esperança.

            É o peso da angústia das pessoas vulneráveis e idosas que atravessam a quarentena na mais absoluta solidão. É o peso imposto às famílias que não sabem mais o que é um prato de comida na mesa. É o peso dos agentes de saúde e servidores públicos ao sentirem exaustos e oprimidos... este peso que parece ter a última palavra.

            No entanto, é comovente destacar a atitude das mulheres do Evangelho. Diante das dívidas, do sofrimento e da perplexidade com a situação e até o medo da perseguição e de tudo o que poderia acontecer com elas, foram capazes de colocar-se em movimento e não se deixar paralisar pelo que estava acontecendo. Por amor ao Mestre e com este típico, insubstituível e bendito gênio feminino, foram capazes de assumir a vida como ela se apresentou, contornando sabiamente os obstáculos para estar perto de seu Senhor. Contrariamente a muitos apóstolos que, prisioneiros do medo e da insegurança, negaram o Senhor e fugiram. (Jn18,25-27) Elas, sem evadir-se ou ignorar o que acontecia, sem fugir ou escapar...souberam simplesmente ficar e acompanhar. Como as primeiras discípulas que, em meio à obscuridade e o desconsolo, carregaram suas bolsas com perfumes e se puseram a caminho para ungir o Mestre sepultado, (Mc16.1), nós podemos, nesse tempo, ver muitos que buscaram trazer a unção da corresponsabilidade para cuidar e não colocar em risco a vida dos demais. Contrariamente a muitos dos que fugiram com a ilusão de salvarem-se a si mesmos, fomos testemunhas de como vizinhos e familiares se puseram a caminho, com esforço e sacrifício, para permanecer em suas casas e assim conter a transmissão.

            Pudemos descobrir como muitas pessoas que já viviam e tinham que sofrer a pandemia da exclusão e a indiferença, seguiram esforçando-se, acompanhando e sustentando-se para que esta situação fosse menos dolorosa. Vimos a unção derramada por médicos, enfermeiros, enfermeiras, repositores das gôndolas, limpadores, cuidadores, transportadores, pessoal da segurança, voluntários, sacerdotes, religiosos, religiosas, avós e educadores e tantos outros que se animaram a entregar tudo o que possuíam para trazer um pouco de cura, de calma e alma à situação. Embora a pergunta permanecesse a mesma: “Quem vai tirar a pedra do sepulcro”? (Mc 16,3), todos eles não deixaram de fazer o que sentiam e que podiam e tinham que dar.

            E foi precisamente aí, no meio das suas ocupações e preocupações que as discípulasforam surpreendidas por um anúncio radiante: “Ele não está aqui, ressuscitou”. Sua unção não era uma unção para a morte, mas para a vida. O velar e acompanhar o Senhor, mesmo na morte e no maior desespero, não foi em vão, mas lhes permitiu que fossem ungidas pela Ressurreição. Não estavam sozinhas, Ele estava vivo e as precedeu em seu caminhar. Somente uma notícia radiante foi capaz de romper o círculo que as impediam dever o que a pedra já havia sidoremovida e que o perfume derramado tinha maior capacidade de expansão do que aquilo que as ameaçava. Esta é a fonte de nossa alegria e esperança, que transforma nosso agir: nossas unções, engajamentos, nossa vigilância e acompanhamento nas formas possíveis neste tempo. Nada será em vão. Não são engajamentos para a morte. Cada vez que participamos da Paixão do Senhor, que acompanhamos a paixão de nossos irmãos, vivendo inclusive a própria paixão, nossos ouvidos escutarão a novidade da Ressurreição: não estamos sozinhos, o Senhor nos precede em nosso caminhar removendo as pedras que nos paralisam.

            Esta boa notícia fez com que estas mulheres voltassem sobre seus passos para buscar os apóstolos e os discípulos que permaneciam escondidos a fim de contar-lhes: “A vida arrancada, destruída, aniquilada na cruz, está desperta e volta a existir de novo”.1 Esta é a nossa esperança, aquela que não poderá ser roubada, silenciada ou contaminada. Toda a vida de serviço e amor que vocês entregaram nesse tempo voltará a surgir novamente. Basta abrir uma fenda para que a unção que o Senhor deseja nos doar se expanda com uma força extraordinária e nos permita contemplar a realidade do sofrimento com um olhar renovador.

            E, como as mulheres do Evangelho, também nós somos convidados, algumas vezes, a refazer os nossos passos e deixar-nos transformar por este anúncio: o Senhor, com sua novidade, pode sempre renovar nossa vida e a de nossa comunidade (Ev. Gaudium, 11). Nesta terra desolada, o Senhor se empenha em regenerar a beleza e fazer renascer a esperança: “Vejam que estou fazendo uma coisa nova, ela está brotando agora, vocês não percebem?”(Is 43,18b). Deus jamais abandona seu povo, está sempre junto a ele, especialmente quando a dor se torna presente.

            Se há alguma coisa que aprendemos, em todo este tempo, é que ninguém se salva sozinho. As fronteiras caem, os muros se derrubam e todos os discursos fundamentalistas se dissolvem diante de uma presença quase imperceptível que manifesta a fragilidade do que somos feitos. A Páscoa nos convoca e convida a fazer memória desta outra presença discreta e respeitosa, generosa e reconciliadora que não rompe a cana esmagada nem apaga o pavio que queima debilmente, (Is42,2-3) para fazer brotar a vida nova que nos quer doar a todos. É o sopro do Espírito que nos abre horizontes, desperta a criatividade e nos renova em fraternidade para responder sim (ou bem, aqui estou) diante da enorme e inadiável tarefa que nos espera. É urgente discernir e encontrar o pulso do Espírito para impulsionar junto com os outros as dinâmicas que podem testemunhar e canalizar a vida nova que o Senhor quer gerar neste momento preciso da história. Este é o tempo favorável do Senhor, que nos pede de não nos conformarmos, nem contentarmos e menos ainda que nos justifiquemos com lógicas substitutas ou paliativas que impedem de assumir o impacto e as graves consequências do que estamos vivendo. Este é o tempo propício de animarmo-nos a uma nova imaginação do possível com o realismo que somente o Evangelho pode nos proporcionar. O Espírito, que não se deixa encerrar nem instrumentalizar com esquemas, modalidades ou estruturas fixas ou caducas, nos propõe de ajuntarmo-nos ao seu movimento capaz de “fazer novas todas as coisas” (Ap21,5).

            No transcorrer deste tempo tomamos consciência da importância de “unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”2. Cada ação individual não é uma ação isolada, para o bem ou para o mal ela tem consequências para os demais, porque tudo está conectado em nossa Casa comum. E se as autoridades sanitárias ordenam o confinamento nos lares, é o povo quem o torna possível, consciente de sua corresponsabilidade para frear a pandemia. “Uma emergência como a da COVID-19 é derrotada, em primeiro lugar, com os anticorpos da solidariedade.”3Esta lição quebrará todo o fatalismo ao qual nós havíamos nos metido e permitirá voltar a sentir-nos artífices e protagonistas de uma história comum e, assim, responder conjuntamente a tantos males que afligem a milhões de irmãos e irmãs, ao redor do mundo. Não podemos permitir-nos escrever a história presente e futura de costas virada ao sofrimento de tantos. É o Senhor quem nos perguntará de novo “Onde está teu irmão?” (Gn4,9) e em nossa capacidade de resposta, oxalá se revele a alma de nossos povos esse reservatório, de esperança, fé e caridade na qual fomos gerados e que, por tanto tempo, anestesiamos ou silenciamos.

            Se agirmos como um só povo mesmo em face às outras epidemias que nos assombram, podemos alcançar um impacto real. Seremos capazes de atuar responsavelmente contra a fome da qual tantos padecem, sabendo que há alimentos para todos? Seguiremos olhando para o outro lado com um silêncio cúmplice diante das guerras alimentadas por desejos de dominação e poder? Estaremos dispostos a mudar os estilos de vida que submergem a tantos na pobreza, promovendo e animando-nos a levar uma vida mais austera e humana que possibilite uma partilha equitativa dos recursos? Adotaremos como comunidade internacional as medidas necessárias para frear a devastação do meio ambiente ou seguiremos negando as evidências?  A globalização da indiferença seguirá ameaçando e tentando nosso caminhar.... Oxalá nos encontremos com os anticorpos necessários da justiça, da caridade e da solidariedade. Não tenhamos medo de viver a alternativa da civilização do amor que é “uma civilização da esperança contra a angústia, o medo, a tristeza, o desalento, a passividade e o cansaço. A civilização do amor se constrói diariamente, ininterruptamente. Supõe o esforço comprometido de todos. Supõe, por isso, uma engajada comunidade de irmãos”.4

            Nesse tempo de tribulação e luto, meu desejo é que ali, onde você esteja, possa fazer a experiência de Jesus que sai ao seu encontro e lhe diz: “Alegre-se”(Mt28,9) Que esta saudação seja aquela que nos mobilize para convocar e ampliar a Boa Nova do Reino de Deus.


Papa Francisco

NOTAS
  1. R. Guardini, El Senhor, 504
  2. Carta Encíclica Laudato Si’ (24 maio 2015) 13.
  3. Pontifícia academia para a Vida. Pandemia e fraternidade universal.
Nota sobre a emergência COVID-19 (30 março 2020) p.4
  1. Eduardo Pirônio. Diálogo com leigos, Buenos Aires, 1986
 (Tradução Textos: Ir. Domingos e Irmão Lucas)
 

 

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