Irmãos do Sagrado Coração
Mensagem do Superior Geral - Mark Hilton, SC
23/09/2020 - Mensagem do Superior Geral - Mark Hilton, SC
A todos meus irmãos em Cristo
           
No limiar deste ano do bicentenário de nossa fundação, nunca poderíamos imaginar o mundo sacudido por uma pandemia, algo que somente acontece uma vez por século. Por todos os lugares do Instituto é o momento de repensar as prioridades, sublinhar os assuntos mais importantes e tomar decisões que reflitam nossa visão fundadora.

            À medida que nossos apostolados, em todo mundo, emergem lentamente de distintas formas de confinamento, bem como nossas comunidades isoladas pela pandemia e a quarentena vão também emergindo, um novo mundo nos circunda, cheio de medos e esperanças, tristezas e alegrias. No entanto, isto nos dá a oportunidade de estar no coração da Igreja e do mundo para transformá-los, segundo nossa Regra de Vida.

            Como reexaminar nossas prioridades neste momento? Como avançar? Talvez o melhor método consista em retornar às nossas origens, à estas palavras do padre André Coindre que expressam sua visão, na primeira Regra:

            “Os Irmãos do Sagrado Coração recordarão, frequentemente, das palavras de Jesus Cristo: Vim trazer fogo à terra e nada mais desejo senão que arda. Procurarão difundir este fogo a todos os corações, após terem experimentado do Coração Sagrado de Jesus Cristo”1

            O padre André Coindre se dirige a nós, seus irmãos, e nos propõe este desafio. E não somente a nós: através de nossa missão, alcança o exterior envolvendo também os nossos colaboradores na missão e a quem servimos.

            Nesse texto, como em muitas outras vezes em seus escritos, o padre André Coindre mescla duas imagens – o fogo e a água – para propagar um fogo tirado, como a água, do poço do Coração de Jesus.


Tirar da fonte

            Esta água brota de um manancial, de um poço, de um depósito de confiança e esperança que encontramos no Coração de Jesus. Abastecemo-nos desta fonte em ergulhamos profundamente nela através a oração e contemplação para descobrir a energia e a visão necessárias para a ação. Deste manancial tiramos esses valores intangíveis, mas essenciais para a vida e o apostolado: a esperança, a confiança, a compaixão e a atenção aos demais. Quaisquer que sejam as pressões do momento, primeiro devemos construir todas nossas obras com base nesses valores.


Transformar-se em fogo

            A outra imagem é a do fogo: ativo, comprometido, transformador, apaixonado e dinâmico. Tiramos este fogo do poço do Coração de Jesus para encarnar este amor numa ação dinâmica. Isto é primordial nesses tempos: a compaixão que nos impulsiona à ação. O padre André Coindre não nos pede para ficarmos sentados olhando, mas para buscarmos meios para transformar o mundo, conformando-o cada vez mais ao projeto de Deus sobre todos nós.
 
           
 E isto não se refere somente ao nosso apostolado. A esperança, a confiança e a experiência de um Deus amoroso, nós as encontramos em primeiro lugar no seio de nossa vida comunitária: oração, sacramentos, partilha da palavra, passar tempo juntos, refeições, serviços mútuos, celebrações, dores, vida comum no meio desta pandemia.

            Fora de nossas comunidades, somos chamados a refletir com os demais, a entrar em diálogo com as inúmeras pessoas vinculadas à nossa missão e que contribuem para ela. Não se trata de responder a todas as perguntas, mas de encontrar o melhor caminho a seguir, aqui e fora, para as crianças e jovens que nos são confiados. Já vimos a criatividade e o compromisso extraordinário de tantos irmãos e colaboradores na missão que empreenderam novos métodos de formar as crianças e jovens, de estar presentes compartilhando junto a eles, de inspirar seus perseverantes esforços. Esses desafios seguirão nos fazendo encontrar, tanto a nossos colaboradores como a nós mesmos, novas maneiras de acompanhar as crianças e jovens para além da crise atual.


Um chamado à solidariedade2

            O papa Francisco compartilhou inúmeras reflexões durante este período. Uma delas é intitulada “Um plano para ressuscitar”3. Nesta meditação sugere que “uma emergência como a da COVID-19 é derrotada, em primeiro lugar, com os anticorpos da solidariedade”. Vemos a solidariedade como o ato que consiste em ficarmos ao lado dos demais para acompanhá-los em seu caminho. Bebendo do poço de nossa própria experiência do amor de Deus, transmitimos esta esperança, esta confiança, esta fé e esta compaixão que Deus nos presenteou anteriormente. Não devemos ter medo, mesmo em plena pandemia, de construir uma “civilização da esperança contra a angústia e o medo, a tristeza e o desânimo, a passividade e o cansaço”4. Deus nos chama constantemente a um próximo encontro cheio de esperança.

            O apelo do papa Francisco à solidariedade diz respeito a toda a família humana; nos recorda que nossos atos individuais afetam a todos ao nosso redor e que podemos ser, mediante pequenos gestos, os arquitetos de uma solidariedade positiva, em nosso meio. Por isso, em nossas comunidades e missões apostólicas locais, escolhamos as possibilidades, deste período, abordando com confiança, ânimo e paixão o sentido da solidariedade no seio de nossas comunidades e instituições, junto com os colaboradores, as crianças e os jovens que foram confiados a nós. Além de tudo isso, porém, desenvolvamos uma solidariedade sem medo do próximo, tentando compreender sua situação e encontrar, com ele, as soluções.

            No seio de nossas comunidades locais já vivenciamos uma experiência única de solidariedade entre nós, os irmãos, na gestão desta pandemia. Necessitamos de confiança mútua e sentido do bem comum para atravessar este tempo difícil. Nossos próprios apostolados constituíram um desafio permanente: lutamos para reunir os educadores e alunos em lugares de ensino seguros, respeitando as novas normas de distanciamento social. Em muitos lugares, as aulas virtuais permitiram aos alunos prosseguir o aprendizado em sua casa. Em outros, a ausência de uma conexão confiável à internet tornou a reabertura das escola saindo mais urgente com a aplicação de todas as medidas possíveis para proteger a saúde dos alunos e suas famílias. A tudo isso, devemos acrescentar que o alto desemprego e outras consequências econômicas da pandemia tornaram ainda mais difíceis, para as famílias, o acesso aos benefícios da educação católica, colocando em risco a sobrevivência de algumas escolas. Qual será o desfecho de tudo isto? Como já experimentamos, tudo é possível se nossos colaboradores, alunos e nós mesmos permanecermos solidários e responsáveis, uns com os outros, cooperando num esforço comum.

Ser um próximo

            A parábola do Bom Samaritano começa com uma pergunta: “Quem é o meu próximo?” Porém, a questão com a qual o relato é concluído é a que se coloca a nós hoje: “Quem foi o próximo do homem necessitado?” Esta pergunta não se refere ao outro, mas a nós mesmos, às nossas reações. Arranca-nos da nossa zona de conforto. Não trata dos esforços do outro, mas dos nossos. Não se centra no valor do outro, mas em nosso desejo de ajudar, na esperança. Nos remete à nossa maneira de estar ao lado do outro, solidário com ele, de caminhar e trabalhar com ele,neste período confuso. Como nos tornar próximos? Como ser solidário com o outro? Como buscamos compreender sua situação para encontrar a melhor forma de agir diante disso?

            A resposta é distinta dependendo das necessidades urgentes de cada lugar. Mas, cada resposta, assim esperamos, nasce do mesmo processo:

  • Reconhecemos nossa própria experiência do amor de Deus (esse poço de esperança no mais profundo de nosso interior).
  • Sentimos crescer em nós o chamado apaixonado para agir (esse fogo que nos queima por dentro e por fora)
  • Empreendemos a ação que nos torna solidários ao nosso redor e nos impulsiona a buscar soluções para os desafios que possam ultrapassar-nos individualmente.

Um chamado a todos para todos

            Nossa vocação à solidariedade, ao acompanhamento mútuo, ao acompanhamento de nossos alunos e de quem nos rodeia, não é novo; mas hoje é ainda mais necessário que nunca. É um chamado que se dirige a nós como irmãos, aos colaboradores que compartilham nossa missão, assim como às crianças e aos jovens que vêm também desta experiência.

            Que esta crise mundial possa se converter numa ocasião para celebrar a fidelidade de Deus para com cada um de nós e para que sejamos instrumentos do amor de Deus a todas as pessoas a quem encontramos dentro ou fora de nossas comunidades e apostolados.

            Que em tudo o que vamos nos deparar no próximo ano, neste bicentenário de nossa fundação, o Senhor caminhe ao nosso lado nos enchendo de seu ânimo e confiança.


Irmão Mark Hilton sc
Superior geral
Roma, 30 de Setembro de 2020
 
Notas

  1. André Coindre: Escritos e Documentos. Vol.2 p.25           
  2. Ilustração desta pág. Provém, na origem, da capela de Paradis. A vidraça se encontra hoje em nosso colégio de Nova Orleans, Louisiana
  3. Papa Francisco, Vida Nova, 17 de abril de 2020, Um plano para ressuscitar.
  4. Eduardo Pirônio, Diálogo com leigos, Buenos Aires, 1986
(Tradução do Texto: Ir. Domingos e Ir. Lucas)


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