Irmãos do Sagrado Coração
Carta Circular - Congregação Educação Católica
23/09/2020 - Carta Circular - Congregação Educação Católica
Congregação para a Educação Católica
 
Carta circular

às escolas, universidades e instituições educacionais
 
A propagação da COVID-19 mudou profundamente nossa existência e nosso modo de viver: “revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda”(1). Além das dificuldades sanitárias, surgiram dificuldades econômicas e sociais. Os sistemas educacionais do mundo inteiro sofreram com a pandemia, tanto em nível escolar quanto acadêmico.

Em todos os lugares tentou-se assegurar uma resposta rápida, por meio de plataformas digitais de ensino à distância, cuja eficácia, porém, foi afetada pela grande disparidade de oportunidades educacionais e tecnológicas. De acordo com alguns dados recentes fornecidos pelas agências internacionais, cerca de dez milhões de crianças não terão acesso à educação nos próximos anos, aumentando a lacuna educacional já existente.

Soma-se a isso a situação dramática de escolas e universidades católicas que, sem o apoio econômico do Estado, correm o risco de fechar ou de se reduzir radicalmente.

No entanto, também neste caso, as instituições educacionais católicas (escolas e universidades) conseguiram se tornar fronteira avançada da preocupação educativa, colocando-se ao serviço da comunidade eclesial e civil, assegurando um serviço educacional e cultural de caráter público, em prol de toda a comunidade.
 
 
Educação e Relacionamento
 
Neste contexto, infelizmente ainda descontrolado em diversas partes do mundo, surgiram alguns desafios. Antes de tudo, o ensino à distância - embora necessário neste momento tão crítico - evidenciou como o ambiente educacional formado por pessoas que se encontram, que interagem direta e presencialmente, não constitui apenas um contexto colateral à atividade educacional, mas a própria substância dessa relação de troca e diálogo (entre professores e alunos), indispensável para a formação da pessoa e para uma compreensão crítica da realidade. Nas classes, salas de aula e laboratórios, crescemos juntos, construindo uma identidade de relacionamento.

Em qualquer idade, e em particular durante a infância, adolescência e no início da vida adulta, o processo de desenvolvimento psicopedagógico não pode ocorrer sem o encontro com os outros. A presença do outro cria as condições necessárias para que criatividade e inclusão floresçam. Na pesquisa científica, na investigação acadêmica e, de modo geral, em toda atividade didática, as relações interpessoais constituem o “lugar” onde transdisciplinaridade e interdisciplinaridade surgem como critérios culturais fundamentais para conter os riscos de fragmentação e desintegração do conhecimento,bem como para a abertura desse mesmo conhecimento à luz da Revelação.
 
 
A formação dos educadores
 
A propagação e persistência da pandemia ao longo do tempo criaram uma sensação generalizada de incerteza também em professores e educadores. Sua contribuição inestimável – que mudou radicalmente com o passar dos anos, tanto do ponto de vista social quanto técnico – precisa ser suportada por meio de uma formação contínua sólida, capaz de atender às exigências dos tempos, sem perder aquela síntese entre fé, cultura e vida, que é a base da missão educacional implementada nas escolas e universidades católicas. Os professores têm inúmeras responsabilidades e, cada vez mais, seu empenho deve se transformar em ações reais, criativas e inclusivas.

Graças a eles, alimenta-se um espírito de fraternidade e partilha, não apenas com os alunos,
mas também entre gerações, religiões e culturas, assim como entre o homem e o meio ambiente.
 
 
A pessoa no centro
 
Para que isso aconteça, é preciso que no centro da ação educacional se coloque sempre a relação com a pessoa concreta e entre as pessoas reais, que compõem a comunidade educacional; uma relação que não pode encontrar casa suficiente na interação mediada por um écran, ou em conexões impessoais da rede digital. A pessoa concreta e real é a alma dos processos educacionais, formais e informais, assim como uma fonte inesgotável de vida por sua natureza basicamente relacional e comunitária, o que sempre envolve a dupla dimensão vertical (aberta à comunhão com Deus) e horizontal (comunhão entre os homens). A educação católica – inspirada na visão cristã da realidade em todas suas manifestações – aponta para a formação integral da pessoa chamada a viver, de forma responsável, uma vocação específica em solidariedade com os outros homens.

Num mundo onde “tudo está intimamente interligado”,(2) sentimo-nos unidos ao encontrar – segundo a antropologia cristã – novos caminhos formativos que nos permitam crescer juntos usando as ferramentas relacionais que a tecnologia de hoje nos oferece, mas sobretudo abrindo-nos à insubstituível escuta sincera da voz do outro, deixando um tempo para uma reflexão e uma projetualidade comum, valorizando experiências pessoais e projetos compartilhados, ensinamentos da história e a sabedoria das velhas gerações.

Em tal processo de formação na relação e na cultura do encontro, encontra um espaço e uma valorização a “casa comum” com todas as criaturas, já que as pessoas, enquanto se formam para a lógica da comunhão e da solidariedade, já trabalham “para recuperar a harmonia serena com a criação”(3) e para configurar o mundo como “o espaço de uma verdadeira fraternidade” (cf. Gaudium et spes, 37).

Serviço como fim a situação atual evidenciou com força a exigência de um pacto educacional cada vez mais comunitário e compartilhado que – tirando força do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja – contribua, numa sinergia generosa e aberta, para a difusão de uma verdadeira cultura do encontro. Por esta razão, as escolas e universidades católicas são chamadas a formar pessoas dispostas a se colocar ao serviço da comunidade. No serviço, de fato, podemos experimentar que há maior felicidade em dar do que em receber (cf. Atos 20,35) e que o nosso tempo já não pode mais ser um tempo para indiferença, egoísmos e divisões: “O mundo inteiro está sofrendo e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia”, pois “o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas”(4).

A formação ao serviço da sociedade para a promoção do bem comum exige “unir esforços num ampla aliança educativa para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido de relações em ordem a uma humanidade mais fraterna”(5).
 
 
Trabalho em rede
 
A evidência de que “a pandemia destacou o quão vulneráveis e interligados somos”(6) pede às instituições educacionais – católicas e não católicas – que contribuam para a realização de uma aliança educativa que, como num movimento de equipe, tenha o objetivo de “encontrar o passo comum para reavivar o compromisso pelas e com as novas gerações, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e compreensão mútua”(7).

Isto pode ser fomentado por uma rede de cooperação mais integrada, que se apresenta como um
ponto de partida para determinar e compartilhar alguns objetivos essenciais para os quais convergir – de forma criativa e concreta – modelos de convivência alternativos aos de uma sociedade massificada e individualista(8).

Trata-se de uma responsabilidade  ampla e aberta a todos aqueles que se preocupam com a construção de um projeto educacional de longo prazo renovado, baseado em princípios éticos e normas compartilhadas. Uma contribuição preciosa pode vir da pastoral escolar e universitária e de cristãos presentes em todas as instituições educacionais.
 
 
Conclusão
 
A Congregação para a Educação Católica – como já foi indicado no comunicado de 14 de maio de 2020(9) - reitera sua proximidade e manifesta seu profundo apreço a todas as comunidades educacionais das instituições escolares católicas e universitárias que, apesar da emergência sanitária, garantiram o desempenho de suas atividades para não interromper a cadeia educacional que representa a base, não apenas do desenvolvimento pessoal, mas também da vida social.

Na perspectiva da programação escolar e acadêmica futura, apesar das incertezas e preocupações, os responsáveis pela sociedade são chamados a dar maior importância à educação em todas as suas dimensões formais e informais, coordenando esforços para apoiar e assegurar, nesses tempos difíceis, o compromisso educacional de todos.

É hora de olhar para frente com coragem e esperança. As instituições educacionais católicas têm em Cristo – caminho, verdade e vida (cf. Jo 14,6) – seu fundamento e uma fonte perene de “água viva” (cf. Jo 4,7-13) que revela o novo significado da existência, transformando-a. Portanto, que nos sustente a convicção de que na educação está a semente da esperança: uma esperança de paz e justiça.
 
 
Cidade do Vaticano, 10 de setembro de 2020

 
Cardeal Giuseppe VERSALDI
Prefeito
 
Angelo Vincenzo ZANI
Arcebispo titular de Volturno
Secretário
 
 
1 PAPA FRANCISCO, Momento extraordinário de oração no adro da Basílica de São Pedro, 27.03.2020.
2 PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato si’, 24 de maio de 2015, 137
3 PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato si’, 24 de maio de 2015, 225.
4 PAPA FRANCISCO, Mensagem Urbi et Orbi, 12 de abril de 2020.
5 PAPA FRANCISCO, Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo, 12 de setembro de 2019.
6 PAPA FRANCISCO, Audiência Geral, 12 de agosto de 2020.
7 PAPA FRANCISCO, Discurso aos participantes na Plenária da Congregação para a Educação Católica, 20 de fevereiro de 2020.
8 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Educar ao Humanismo Solidário. Para construir uma civilização do amor 50 anos após a Populorum progressio, 16 de abril de 2017, VI.
9 ttp://www.cec.va/content/dam/cec/Documenti/COMUNICATO%20global%20compact%20IT%2014-05-2020.pdf


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