Irmãos do Sagrado Coração
Espiritualidade







   Livro N° 3 em preparação ao Bicentenário;

   Autor: Irmão Bernard Couvillion;

   Dedica seu tempo ao serviço pastoral no Colégio São
   Estanislau, na Baia de São Luís - Mississipi.

 












 


INTRODUÇÃO - A JANELA


 
O IRMÃO MAURICE
 
Essa tentativa de delinear as etapas da nossa Espiritualidade que evoluía para o terceiro século, inspira-se no Reverendo Irmão Maurice Ratté.

Foi ele quem nos guiou a uma reorientação espiritual durante as décadas nas quais os Capítulos Gerais, depois de prender seu olhar no Fundador e escutar todas as vozes do Instituto, redigiram e colocaram a prova nossa atual Regra de Vida.

Ir. Maurice consagrou os melhores anos de sua vida para orientar a conversão do nosso Instituto para uma Espiritualidade Apostólica, como resposta a decisiva ação de Deus no ardente coração do Padre Coindre.

Muito antes de seus três sexênios em Roma, um como Primeiro Conselheiro e dois como Superior Geral, Ir. Maurice passou ali o período 1952-53, num ano sabático no noviciado maior; durante o que se observou como objetivo aprofundar na espiritualidade do Sagrado Coração.

Com a vantagem de estar na Casa Geral, para indagar os arquivos, leu todas as circulares a respeito do Sagrado Coração, escritas pelos Superiores Gerais, desde Padre Coindre (1948), para assim poder inspirar-se em como viveram sua espiritualidade em sua época.
 
 
Eleito mais tarde como líder espiritual, primeiro pelos seus Irmãos no Canadá e logo por todo o Instituto, entendeu que era sua responsabilidade ser uma voz profética que chamasse para a conversão em nossa maneira de abordar a Devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Os ensinamentos do Concílio Vaticano II, sua fonte de alimento espiritual ainda quando estavam no rascunho, confirmaram e ampliaram suas convicções interiores nascidas da experiência. Nos arquivos em Roma encontramos cartas que escreveu inclusive antes do Concílio, enquanto era Provincial no Canadá, nas quais expressava esta necessidade de conversão.

Assinalou a seus Irmãos que a multiplicação de Devoções, Atos de Piedade e Orações Recitadas corriam o risco de voltar a serem fórmulas vazias, irrelevantes para sua missão apostólica: “Porque pertencemos a um Instituto Apostólico, nosso dever de estado é acender diretamente nos outros a chama do Amor de Deus para que não morram de frio. Isso significa que nosso Programa de Oração deve ser modificado de maneira que facilite nossas iniciativas apostólicas e evite a fadiga excessiva”.

No 157º aniversário da Fundação do Instituto, escreveu uma circular cujo subtítulo é “O Sagrado Coração em nosso Apostolado”. Um mal entendido que o Irmão Maurice esperava eliminar de nossa espiritualidade era o duplo sentido que tinha a oração num comportamento de nossas vidas e nosso ministério em outro totalmente separado: “O amor de Cristo há de passar através do nosso ser de tal maneira que se confunda num só amor”.
 
O CONCÍLIO VATICANO II
 
Esta esperança encontrou eco nos ensinamentos do Concílio Vaticano II, no decreto Perfecta e caritatis, a respeito da unificação da oração e da ação: “Os membros de qualquer Instituto, buscando somente, e, sobretudo a Deus unir a Contemplação, pela qual se unem a Ele com a mente e com o coração, ao amor apostólico, com o qual hão de se esforçar por associarem à obra da Redenção e por estender o Reino de Deus”.
 
 
No contexto a respeito da Espiritualidade na Vida Religiosa e na Igreja que prevalecia antes do Concílio, estas duas citações fazem uma omissão extraordinária e totalmente intencional: nós não somos o objeto da contemplação nem da intercessão. Vale a pena voltar a lê-las com atenção: não dizem nada a respeito dos benefícios da oração para nós mesmos. Em compensação, pressupõem-se um auto esvaziamento, inclusive na oração, ao chamar-nos para contemplar o amor de Deus e as necessidades dos demais, para assim encontrar o modo de servir de canal de comunicação entre ambos.

O Papa João XXIII deliberadamente escolheu anunciar o Concílio Vaticano II na festa da Conversão de São Paulo em 1958, para ressaltar que todo o Concílio deveria ser um chamado para a conversão.
 
Em concreto, o que tinha na Espiritualidade dos anos 60 que fizesse que o ensino da Igreja e do Ir. Maurice fosse um chamado para a conversão?

A promoção na Igreja da Devoção ao Sagrado Coração, com o tempo, recaiu no oferecimento de indulgências como incentivos ou recompensas para aqueles que recitaram certas Orações prescritas.

Por exemplo, as doze promessas a Santa Margarida Maria asseguravam um lugar no céu para aqueles que comungassem as nove primeiras sextas feiras do mês de maneira consecutiva. A proliferação desse tipo de indulgências promoveu uma cultura de “receber a graça” para assegurar um bom lugar no céu.

Entre os Irmãos, esta visão das práticas espirituais baseado no mérito, tinha se Institucionalizado. Por exemplo, através dos anos, diversos artigos do Anuário publicaram as oportunidades para ganhar indulgências – totais, parciais, unidas a orações. Num exemplar dedicaram-se nove páginas para categorizá-las, algumas das quais requeriam que um artigo religioso específico fosse conduzido por quem buscava a indulgência.

As Regras e Constituições dos Irmãos, em vigor no ano de 1964, início do mandato do Ir. Maurice em Roma, diziam que: “O Instituto dos Irmãos do Sagrado Coração é uma sociedade de pessoas que vivem sujeitas a mesma disciplina, aprovada pela Igreja, para se ajudarem a conseguir a felicidade eterna.”

A graça devia ganhar-se. A motivação à Missa devia ser reforçada pela dor dos pecados. Prescreviam-se atos de penitência. Conformava-se com o tempo, o que podia chamar-se “uma espiritualidade do espelho”, contra o qual fazíamos obras e adotávamos práticas religiosas cujos benefícios eram revertidos para nós.

Convertíamo-nos santos. De maneira que, para poder assegurar nosso progresso na santidade pessoal, enxergávamo-nos na Regra como num espelho para comparar-nos com os ideais e virtudes que nos propunha: “Se guardar a Regra, ela te guardará”.

A Igreja em 1964 chamava a Vida Religiosa de “o Estado de Perfeição”, e a Regra aprovada era nosso caminho a essa perfeição. Uma espiritualidade tão centrada em nós mesmos revela que duvidamos de nossa salvação. Sua raiz reside na falta de confiança na promessa de Deus de amor, santidade, perdão e vida eterna, que é “muito bom para ser verdade”.

O chamado do Vaticano II à Conversão, que excluía a espiritualidade do mérito, tinha a ver com abandonar qualquer consideração a respeito do que podíamos obter para nós mesmos por meio da nossa piedade.
Foi em Lumen gentium, a constituição dogmática a respeito da Igreja onde foi o mais enfático desafio de abandonar a espiritualidade do espelho: “Os seguidores de Cristo, chamados por Deus não em razão de suas obras, mas em virtude do desígnio e Graça Divinos e justificados no Senhor Jesus foram feitos pelo batismo, o sacramento da fé, verdadeiros filhos de Deus e partícipes da divina natureza, e pelo mesmo, realmente santos.
Em consequência, é necessário que com a ajuda de Deus conservem e aperfeiçoem em sua vida a santificação que receberam” (LG 40).

O rumor que podemos imaginar é o de um espelho sendo quebrado, e com ele a Regra e todos os mandatos que ela valorizava. A Igreja retirou seu apoio aos imperativos “salve sua alma” e “torne-se santo”. Aboliu a pedagogia da culpa e o sistema de recompensas e castigos. Declarou obsoleta nossa Regra e nos encomendou criar uma nova, na qual tudo fosse graça.

Outro rumor surgia, era o lamento de gerações de católicos, entre eles os Irmãos, que cresceram seguindo o mapa espiritual que os incentivava por meio do medo, do mérito e das indulgências; que agora eram descartadas juntamente com o latim e o pecado de comer carne as sextas-feiras.
 
 
A conversão do sistema de méritos não foi fácil. Os rumores dos que faziam duelo eram uma lamentação de ressentimento. Por terem dito que estiveram toda vida esperando em fila equivocada.
Há um terceiro rumor: gritos de libertação daqueles, entre eles o Ir. Maurice, que tinham esperado durante longo tempo para desfrutar “a sublime e indefectível liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,21) proclamada pelo Papa Paulo VI.

Cinquenta anos depois que Lumen gentium mudasse para sempre os princípios da Doutrina da Igreja sobre a Espiritualidade, a sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos apresentou sua síntese da chamada à conversão espiritual do Vaticano II: “Deus está sempre nos atraindo” para uma intimidade cada dia mais profunda, de uma vida centrada em si mesmo para uma vida guiada por Deus e para uma forma de vida que abraça um amor de doação: “Ame a Deus com todo o seu coração”, “ame ao próximo como a si mesmo”.
Mais uma vez nosso ego não está em cena. A Igreja nos pede que roguemos para nos converter a uma Espiritualidade livre da preocupação por si mesmo e do sistema de recompensas e promessas.

A Igreja, afortunadamente, não nos deixou simplesmente assim: com fragmentos de espelho espalhados ao redor dos nossos pés, sobre um chão de mármore. Trocou o espelho por uma janela, com painéis de vidros transparentes que nos permitem centrar-nos no outro.

O dia em que o Papa João XXIII convocou o Concílio disse: “Quero abrir as janelas da Igreja para que possamos olhar para fora e as pessoas possam olhar para dentro”. Esse desejo tocou uma fibra sensível. Mas que todos os documentos teológicos com nomes em latim, a imagem da janela do Papa João converte-se no símbolo da conversão da Igreja.
 
A janela que permite olhar para fora e para dentro é o novo paradigma espiritual da Igreja para o mundo de hoje. Ao apresentar a imagem de uma janela, o Papa João, intencionalmente, nos propunha os arcos com vitrais de uma catedral. Em contrapartida, referia-se às janelas comuns, como as que normalmente estão fechadas nos apartamentos papais.

Queria que a Igreja olhasse através de um vidro transparente, o melhor para contemplar as pessoas ordinárias a nossa volta. O Papa João sustenta, para a nossa veneração orante a luz do potencial divino nos corações dos nossos contemporâneos. Nós fixamos nossos olhos, ouvidos e corações para contemplar “os gozos e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de nosso tempo, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem.”

O Ir. Maurice pegou sua luz da janela do Vaticano II e promoveu uma década de diálogo por todo o Instituto; o qual levou a uma reescrita completa da Regra de Vida durante os anos setenta e oitenta. A chamada à conversão do João XXIII deu ao Ir. Maurice, que então tinha 55 anos, uma energia inesgotável para promover a Espiritualidade da janela como uma nova perspectiva da espiritualidade do Sagrado Coração.

Escutou Jesus dizendo-lhe: “Olhe para cima e contempla a Humanidade, os pobres, os sedentos de justiça: os que vão em busca de água viva. Olha meu coração: pegue e leve esta água vivificadora que tira a sede para sempre”.
 
A CRUZ DO CORAÇÃO
 
Com a sua liderança, muitos Irmãos em busca de um sinal distintivo para expressar sua conversão comunitária, começaram a usar uma pequena cruz de metal com um coração aberto no centro, desenhada pelo Ir. Anicet Paulin do distrito da Austrália.
 
 
Essa cruz rapidamente espalhou-se pelo Canadá e pelo Instituto como um emblema que lembrava o novo ponto de referência que a Regra apontava para a nossa Espiritualidade: o coração aberto de Jesus na cruz.
A partir do seu desenho, esta cruz foi adaptada para diferentes culturas pelo mundo todo. Nos Estados Unidos, a cruz do Irmão Anicet foi levemente modificada, mas seu significado permaneceu inalterado: o Coração de Jesus é a janela através da qual olhamos os nossos contemporâneos e as feridas de seus corações.

Pouco depois. O Capítulo Geral do ano 2000 reuniu em Roma os cinquenta e três Irmãos de trinta e três países para se unirem à Igreja na celebração do Grande Jubileu. Ao dar início ao Ano Santo, o Cardeal francês Roger Etchegaray evocou o Coração transpassado de Jesus na cerimônia de abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro.

Inspirado por essa cerimônia, nossa equipe de preparação do Capítulo Geral encomendou um logotipo que expressasse o tema do Capítulo.

No logo, o coração aberto da nossa cruz cresce até converter-se na janela do Vaticano II. A cruz permanece, mas o contorno do coração se expande para formar uma janela de quatro painéis.

Em nossa Espiritualidade da janela, queremos olhar quem nos rodeia através do Coração de Jesus aberto na cruz.

Os membros do Capítulo, contemplaram em como responder às necessidades das crianças, adolescentes e jovens pobres e sem esperança no umbral do terceiro milênio. Hoje, a mesma janela pode nos ajudar a empreender quatro contemplações essenciais para nossa conversão espiritual.

Podemos chamá-las de “Contemplações Cardeais” porque são indispensáveis. Cardeal vem da palavra latina utilizada para bisagra, como as da janela que abriu o Papa João XXIII. Nossa espiritualidade se abre em quatro contemplações através desta janela. Estas contemplações duram a vida toda, podemos repeti-las sempre e nos dão a vida.

Agora, com a janela aberta do Coração de Jesus como nosso ponto de partida, empreenderemos quatro Contemplações Cardeais, cruciais para a nossa Espiritualidade. A partir dos nossos antecessores, que marcam nossa identidade como Instituto, realizaremos os dois movimentos da Contemplação implícitos nos ensinamentos do Vaticano II e do Ir. Maurice: olhar além de nós mesmos e sair para dar uma resposta.
 




1 -  OS DISCÍPULOS AMADOS, JOÃO E MARIA MADALENA


 
A primeira Contemplação que o Ir. Maurice faz e sua circular a respeito da nossa conversão espiritual abre uma janela à cena do soldado perfurando Jesus ao lado. Pede-nos que, com ele, fixemos o olhar em quem está ao pé da cruz.

Começa com o discípulo a quem Jesus amava. João tinha ficado com Jesus em alguns momentos de maior intimidade, tinha visto Jesus chorar pela morte de seu amigo Lázaro e descansou sua cabeça no peito de Jesus, enquanto estavam reclinados na mesa na última ceia.
 
 
Olhemos o discípulo amado interatuar com outra pessoa também amada por Jesus: Maria Madalena ou A Madalena. Sabemos menos dela do que dele. Tinha sido discípula de Jesus desde o princípio. Durante séculos, os autores de textos espirituais mostraram-na como uma antiga prostituta ao confundi-la com a pecadora mencionada por Lucas.

Embora, desde 1969 a Igreja sustenta que se trata de uma pessoa diferente: uma mulher de certo status social e econômico que viajava com Jesus e seus discípulos ajudando-lhes com seus abundantes bens.

Para mostrar sua importância entre os discípulos, o Papa Francisco recentemente elevou sua festa ao mesmo nível das celebrações litúrgicas dos apóstolos.

Ao contemplar a cena, também descobrimos as pessoas que não estão ali: Pedro, Santiago e nem os Doze. João e Maria Madalena são os únicos do grupo de Jesus com coragem de permanecer perto dele em sua crise de vulnerabilidade e vergonha. Eles representam a “todos os homens e mulheres” (cf. Regra de Vida3) que intencionalmente acercam-se para ver o “transpasso ao lado de Cristo pela lança”.
 
A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO CORAÇÃO
 
Como testemunha ocular deste acontecimento histórico, João proclama que o que viu realmente aconteceu; as palavras iniciais de sua primeira carta são um testemunho direto. Os dois discípulos amados vislumbraram vida eterna nesta “manifestação do Sagrado Coração na cruz” e fizeram da mesma uma parte central do anúncio de salvação, dirigido e terminado pelos discípulos de Jesus através dos tempos.
 
 
Nosso Instituto pode considerar-se descendente direto do anúncio de João da “manifestação do Sagrado Coração na cruz”. Policarpo, Bispo de Esmirna, um contemporâneo do discípulo amado, conheceu pessoalmente João e sua comunidade perto de Éfeso. Sempre ouviu João a respeito da realidade histórica da manifestação do Sagrado Coração. São Policarpo passou esta mensagem a seu discípulo São Irineu que por sua vez, levou-o a Lyon ao ser nomeado bispo. Assim como na época que tinha uns quarenta anos, cita o anúncio de João numa carta escrita antes do ano 200 DC.

Da maneira que Irineu deu testemunho da “manifestação do Sagrado Coração na cruz” em Lyon, onde se abriu um caminho até as notas de predicação de Pe. Coindre.
 
DEVOTOS OU DISCÍPULOS?
 
A aspiração de todo devoto é estar perto de Jesus, fixo na contemplação do mistério de seu total auto esvaziamento. Mas, se há algo totalmente claro nos escritos do Ir. Maurice, é que ser um devoto não é suficiente.

Nossa resposta deve converter-nos em discípulos amados do Sagrado Coração de Jesus.

O que significa ser como discípulo? Há cristãos que mostram devoção com artigos de joalheria – como nossa cruz distintiva-, com orações, retiros e devoções, e inclusive manifestando publicamente sua adesão; mas sem fazer a opção sacrificial de viver suas vidas com, como e para Jesus Cristo em sua missão de salvação.

Fazer a viagem espiritual com o Ir. Maurice requer como discípulos, e não meros devotos. Os discípulos são como aprendizes em relação ao mestre artesão. A opção de ser discípulo implica num rigoroso e disciplinado processo de crescimento, até o ponto de perpetuar o legado vital do mestre. A cada passo de crescimento nos leva ao seguinte nível.

O mestre encomenda a seu discípulo completar o trabalho que ele começou, confia em que se manterá inspirado pelos seus ideais e a beleza original que ele introduziu no mundo.

Na estreia da ópera Turandot em La Scala de Milão em 1926, dois anos depois da morte do grande compositor Puccini, o diretor Arturo Toscanini deteve a execução ao final do terceiro ato. Abaixou a batuta, virou-se para o público e disse sem rodeios: “Aqui terminamos a ópera.

Neste ponto o maestro morreu”. Com seu gesto categórico, o diretor queria honrar ao grande compositor de quem era devoto entusiasta.

Não assistiram as duas cenas finais escritas por Franco Alfano, a quem o moribundo maestro tinha encomendado completar a obra segundo suas orientações.

Depois de cinquentas e seis anos de representação desta ópera em todo o mundo com o final truncado de Toscanini, um erudito desenterrou e levou a cena o final original de Turandot, escrito por Alfano, a quem Puccini tinha escolhido pessoalmente. Os críticos o elogiaram: “Esta versão é mais rica, mais grandiosa e, em conjunto, mais satisfatória”.

Toscanini era devoto, Alfano era um discípulo cuja contribuição ainda vive depois de gerações. Nosso trabalho apostólico como discípulos nos foi encomendado pelo Maestro, que quer que confiemos em nós mesmos e em nossos dons. Como discípulos, se permanecemos unidos de Coração a Jesus, podemos ser fiéis a sua inspiração e prolongar com eficácia sua nobre missão.

Para destacarmos os verdadeiros discípulos, Ir. Maurice nos levou ao pé da cruz. Os outros, devotos, perderam a inspiração. Da cruz, como Tocanini, disseram: “Aqui é onde morreu o mestre”. Afortunadamente ali, junto com a mãe de Jesus, permaneceram aqueles que fizeram a opção de serem discípulos mais além da morte: João e Maria Madalena, que aceitaram a tarefa de proclamarem seu auto esvaziamento e de levarem sua missão ao mundo.

Na medida em que nos convertemos de devotos para discípulos, necessitamos aprender com eles e pedir-lhes que roguem por nós, para que cheguemos a ser discípulos como eles. Rezar e cultivar a identidade de discípulos como eles foram, é o núcleo da mensagem do Ir. Maurice.
 
 
Ele chama a nossa espiritualidade de “discipulado do coração”. Peçamos que nos dê um coração de discípulo que cresça, como o de João e Maria Madalena, desde uma “experiência de uma amizade profunda com Cristo”. Expressamos nossa espiritualidade não apenas nos momentos de oração, mas sim também no calor do serviço ativo de nossa missão.
 
PROCLAMAR A RESSURREIÇÃO
 
Depois que Nicodemos deposita a Jesus na tumba e enquanto os antigos discípulos estavam paralisados pelo medo, nós continuamos contemplando os verdadeiros discípulos. Assim como estiveram junto à cruz, também são os primeiros a acudir a tumba, onde Jesus ressuscitado espera com amável paciência a Maria Madalena.

Antes do amanhecer, ela levanta-se com uma única coisa em mente: procurar seu corpo maltratado e confortá-lo com bálsamo. Ver a tumba aberta e vazia a desconcerta: Foi roubado! Profanado! Então ao ouvir “Maria”, pronunciado no tom de voz que ela tão bem conhece, cai de joelhos e tenta agarrar com seus braços as pernas de Jesus.

Depois disso, tudo é correria e euforia. Apressa-se para encontrar os outros: “Vi o Senhor”. João, que tira vantagem de todos os demais correndo, é o primeiro homem a chegar ao túmulo e o primeiro entre eles a acreditar no que Maria Madalena gritava: Não o roubaram, ressuscitou! Algo na convicção da voz da mulher e na maneira em que os lenços estão dispostos o convence: Ressuscitou! Além disso, os ladrões de túmulos não deixam as vendas.

O que nos ensina esta contemplação sobre como responder? Primeiro, identificamos como herdeiros de João e Maria Madalena, como discípulos amados que constantemente mantêm diante dos seus olhos, como ponto de referência, o Coração Transpassado do que flui o Amor de Deus. Em segundo lugar, tomar a resolução de convertermos em fonte de que brota água e sangue vivo.

Num sentido, a água viva é perdão. João e Maria escutaram o pedido de Jesus ressuscitado de perdoar os outros em seu nome. Em consequência, eles perdoaram os outros discípulos que fugiram, que repudiaram à Jesus, que se esconderam, que duvidaram, que o traíram e que voltaram a mentalidade de “cada um para si”. O perdão é um acontecimento de salvação que funciona em dois sentidos: nós bebemos da consolação de ter sido perdoado e perdoamos outros em nome de Jesus.

Como diz a oração diária da Igreja: a consciência da nossa salvação vem do perdão dos nossos pecados. Não sabemos que fomos salvos até que experimentamos o perdão. Nada difunde a água viva da salvação entre crianças, adolescentes e jovens de maneira mais eficiente do que o perdão. Nós os corrigimos, os consertamos, ensinamos o sentido do que é correto e, então os perdoamos. Esses passos são atos de salvação, água viva.

A experiência do perdão é o começo da consciência nas crianças e jovens da salvação de Deus. Eles precisam de nós para ter essa consciência, o Senhor precisa de nós para dar-lhes essa consciência.

Como discípulos amados também respondemos de uma segunda maneira: transmitimos a visão de vida eterna que João e Maria testemunharam enquanto olhavam para a lança. Proclamamos a boa notícia. Como vimos, nossa cruz distintiva é uma maneira de proclamar a centralidade da “manifestação do Sagrado Coração na Cruz” em nossas vidas. Essa cruz expressa o auto esvaziamento de Jesus no Gólgota.

Mas a nossa contemplação por Maria e João vai mais além do Gólgota, até a cena em que os discípulos amados proclamam aos gritos que Jesus ressuscitou do sepulcro.

Uma parte essencial da nossa reposta é anunciar às crianças e jovens nossa fé na ressurreição, que significa que o mundo está sob a influência de Cristo ressuscitado. Como os discípulos amados, acreditamos que Jesus ressuscitado é o Novo Adão, que inclui a nós e a humanidade inteira em seu destino de novidade.
 
A IMAGEM PROPOSTA POR JOÃO EUDES
 
Como não é nossa vocação ser predicadores ou ministros dos sacramentos, uma maneira pela qual podemos proclamar a ressurreição das crianças e jovens é por meio de imagens. Podemos apresentar imagens do Sagrado Coração de Jesus como aparições de Jesus posteriores a ressurreição. No século XVII, na França, Pe. João Eudes imaginou o poder de tais imagens.

Promoveu a primeira versão de um ícone de Jesus com seus braços elevados em bendição e com o Coração Transpassado visível no seu peito. Santa Margarita Maria Alacoque conhecia esta imagem, como também a conhecia a Ir. Maria do Divino Coração, uma mística na tradição eudista.
 
 
Todos vimos variações desta imagem em forma de estátua, pinturas e cartazes que conseguiram muita difusão na escola francesa de espiritualidade e mais tarde no mundo inteiro. Inspirou os artistas e escultores de muitas culturas. Uma dessas imagens está na porta da circular do Ir. Maurice.

O coração exterior é importante na espiritualidade de Pe. João Eudes. Pode ser útil olhar como ele o fez. Ele acreditava que o verdadeiro mistério do coração é interior, mas como não era um místico contemplativo e sim um missionário ativo, era realista. O que ele viu na imagem são dois corações, um exterior e outro interior: “No interior há um permanente estado de disponibilidade que, embora sempre se expressa por meio de gestos e ações, de maneira temporal e atemporal.

O coração interior gera iniciativas de amor ativo para expressar sua riqueza inesgotável. Deste modo, o discípulo amante pode morar dentro deste duplo coração que se expande, arraigando-se num lar duradouro - uma forma de ser -; enquanto forja para fora modos de viver o mistério interior, por meio da ação exterior – uma forma de fazer”.

O ícone do Pe. João Eudes de Jesus, com um coração interior e outro exposto, é uma inegável Proclamação da Ressurreição. Anuncia que o Senhor Ressuscitado está ainda presente no mundo. O que o Coração exterior acrescenta é uma lembrança de que a Ressurreição de Jesus não aconteceu sem sua paixão, suas feridas e sua morte. Também enfatiza, quão central para nossa salvação, a manifestação visível do Sagrado Coração de Jesus na Cruz.

 


2 - PE. ANDRÉ COINDRE E O IR. JAVIER


 
Começamos nossa segunda contemplação cardeal observando o Ir. Javier em sua escrivaninha no Pio Socorro, a providência para jovens em risco que Pe. Coindre fundou no bairro da Croix-Rousse de Lyon. O jovem sacerdote se apoiou em grande medida em Javier, primeiro como leigo e depois como Irmão. Tão preso estava este pela visão carismática e as esperanças do Padre Fundador, que chegou ele mesmo a personificar a missão do Pio Socorro. O Ir. Javier era o discípulo amado do Fundador.

Depois de passar vinte e um anos imersos na obra que era o “Coração visível” do nosso Fundador, é ele quem, como o discípulo amado João pega o papel de testemunha – evangelista.
 
O projeto global do Pio Socorro, que Pe.Coindre tinha sustentado com seu próprio dinheiro, inspirado com sua visão espiritual original e pelo que tinha sacrificado sua própria saúde, está em perigo de colapsar devido à agitação obreira e as incertezas financeiras. Javier quer deixar testemunho e imortalizá-lo.

Começa suas memórias com estas palavras: “Em 1817, o senhor Pe. Coindre, vendo que os hospitais e as prisões de Lyon enchiam-se de meninos, tomou a decisão de fundar uma casa para recolhê-los e afastálos do perigo”.

O que Ir. Javier faz é extraordinário. Descreve a vivência de Pe. Coindre da Espiritualidade da janela. Está contemplando o Pe. Coindre no ato de contemplar os jovens que enfraqueciam nos hospitais e prisões de Lyon. Em nossa primeira contemplação cardeal, olhamos os dias finais de Jesus em Jerusalém através dos olhos dos discípulos amados. Agora vamos atravessar Lyon para contemplar nosso Fundador através dos olhos do discípulo que melhor o conhecia e o primeiro em amar sua visão.

Os Irmãos franceses Jean-Pierre Ribaut, importante editor junto com Guy Dussault da edição crítica em cinco volumes dos escritos do Padre Coindre, Ir. René Sanctorum, em seu texto “Nascidos na Prisão”; e antes que eles Ir. Jean Roure, em sua cronologia ilustrada, continuaram e aprofundaram a contemplação iniciada por Javier. Eles, junto com os Irmãos espanhóis Jesús Ortigosa e José Luis Gómez, e os Irmãos canadenses Guy Brunelle e Louis-André Bellemare, acrescentaram detalhes decisivos que só descobriram mediante uma
intensa investigação fundada na contemplação.
 
O OLHAR CONTEMPLATIVO DE PE. ANDRÉ COINDRE
 
Olhemos o sacerdote de trinta e três anos subindo a um púlpito elevado para predicar, como testemunharam seus superiores. “com talento excepcional”. Isto o fez incontáveis vezes, com resultados extraordinários. Sua prédica tinha um toque teatral como mostra o informe de um tenente em serviço: “Repentinamente tira-se a sobrepeliz dizendo que não é digno de vesti-la, coloca uma soga envolta do seu pescoço e declara que o que ele merece é a vergonha.

Segurando com uma mão o extremo da corda e uma vela na outra, realiza uma oração apropriada para a ocasião. Um dos prisioneiros, condenado a prisão perpétua, começa a chorar e a gemer, outros são arrastados pelo seu exemplo. Inclusive as irmãs se deixam levar”.

Depois desse sermão, um sacerdote companheiro de Pe. Coindre, que foi testemunha ocular, escreveu para seu superior em comum informando-o que ninguém mais tinha notado: “Pe. Coindre estava sofrendo dores pulsantes de gota, até o ponto de ser incapaz de caminhar. (...) Precisa-se magnitude e coragem para estarem com estes desafortunados prisioneiros, que muitas vezes estão amargurados e rebeldes. Também requer tato e aptidões especiais que não são dadas a todo mundo”.
 
 
 
A sensibilidade e a contemplação de Pe.Coindre para a situação dos presos aumentava à medida que ia visitando com regularidade os centros de reclusão de Lyon. O que especialmente cativava seu olhar e enchia seu coração era o número de jovens encarcerados junto com os que eram chamados de “homens perversos”.

Não tinha celas, os presos de todas as idades vagavam por grandes salões e pátios. Dormiam sobre palha, cobertos com trapos, e passavam o dia na ociosidade.

Registros desse período mostram que tinha 155 crianças menores de doze anos no Hospício de Caridade; também tinha 20 meninos e 180 homens detidos na prisão de São José.

Pe. Coindre sentia uma compaixão urgente pelos meninos, especialmente pelos mais jovens: “Precisavam uma atenção pessoal para restaurar sua dignidade. São culpados numa idade que se mais temerária que incorrigível. Precisam estar rodeados do bem e separados da contaminação que os rodeia”.

Em 2 de junho de 1817 visitou o hospício de L’Antiquaille; esse dia contemplou algo que lhe mudou a vida. Descreve-o em um de seus sermões: “vejo nas grandes cidades do reino a jovens simples que dirigem seus passos em direção à prisão. Reconheço-os com esse ar sério, esse porte sossegado, esse rosto alegre e essa presença serena que os diferenciam e que constituem um contraste tão chocante com o rosto tão horrível de nossos jovens incrédulos. Acercam-se. As fechaduras se abrem com um grande barulho; abre-se o calabouço escuro.

Ouço ruídos das correntes que se removem e vejo um infortunado estirado na palha, levantando suas algemas; acreditava talvez que era a visita do severo guardião que está obrigado a mantê-lo no tormento. Aborrecia sua presença. Mas percebem que são os anjos de paz que os visitam. Então a alegria renasce em seu rosto. A vida flui por suas veias, sorri, espera, tem um momento de felicidade. Beija a mão de seus benfeitores e sente muita tristeza quando os vê ir embora.(...)”.

O olhar atento de Pe. Coindre para os sofredores prisioneiros muda ao contemplar a um grupo de jovens leigos. Descobre que estes “anjos de paz” são membros de uma associação laical, um grupo liderado por um banqueiro chamado Benoît Coste. Essa associação, com um estatuto aprovado pela Igreja, encanta o administrador da prisão. Com o passar do tempo, a Real Sociedade de Prisões pede a alguns de seus membros que formem uma comissão consultora permanente. Para um deles, o Sr. Forcrand de l’Isle, dono de uma propriedade na cidade, pede-se que dirija essa comissão.

Mais tarde, Pe. Coindre ficou impressionado por uma das melhoras que Coste e Forcrand de l’isle lhe mostraram: uma grande sala para jovens menores de dezesseis anos onde vinte deles estavam ocupados em diferentes tarefas sob a supervisão de um prisioneiro, um condenado, cuja atitude era apropriada para esse papel. Além das lições de religião dadas pelo capelão, aos domingos recebiam instrução de jovens, homens e mulheres, que os visitavam. Tinha boas intenções, mas Pe. Coindre viu que o método de insistir com o catecismo de maneira rotineira precisava ser suavizado.
 
A EMPATIA
 
Pe. Coindre sentiu-se movido pela admiração e consolação. Viu novas possibilidades. Sim, nas prisões havia homens “corrompidos até os ossos”, nas palavras do Sr. Coste, mas o olhar atento de Pe. Coindre descobre jovens que simplesmente os deixavam perdidos, cuja debilidade, fome e sentimentos desorganizados os haviam conduzido a cometer seus primeiros crimes.

Descobre crianças sem nenhum suporte familiar nem disciplina. No Coste e nos demais membros da associação de leigos, Pe. Coindre encontra almas gêmeas que creem que a esperança na transformação destas crianças presas nunca deve se perder.

Esse dia em l’Antiquaille, a fé de Pe. Coindre no poder divinizador do batismo funde-se com os sentimentos de empatia que lhe chegam desde o coração de Deus. Uma espécie de imaginação profética se desperta.

Arde em amor. Não poderia dar as crianças, mestres de verdade que pudessem ensiná-los a ler, escrever e calcular, e que lhes dessem instrução moral? Não poderia liberá-los da vagância e do vício se aprendessem um ofício honesto? Não poderia tirar da prisão e levá-los a um lugar onde lhes dessem um refúgio e um emprego útil?

A formação que Pe. Coindre recebeu no seminário e, o que tinha posto em contato, por meio dos Padres Sulpicianos, com a escola francesa de espiritualidade. Sua principal referência, o Cardeall Bérulle, tinha insistido na missão da Igreja em relação aos mais pobres: ‘Digo-lhes a verdade: os que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. (Mt 25, 40). Mas os superiores de Pe. Coindre no clero, ciumentos porque se “consagravam por inteiro as obras de piedade, sobretudo nas prisões”, lamentavam-se entre eles de que estavam “desperdiçando em pequenos projetos um talento excepcional para a predicação”.
 
UMA OPÇÃO PROFÉTICA
 
Pe. Coindre ficou preso em um dilema. Seu coração estava numa barganha entre a lealdade às suas tarefas como sacerdote e sua compaixão, alimentado por uma citação de Jesus: “Eu vim lançar fogo a terra, e quem me dera que já estivesse a arder”! (Lc. 12, 49).

Resolveu seu dilema com um ato de total esvaziamento: dedicar cada momento livre que seu ministério lhe deixasse para resgatar as tantas crianças que conseguisse, e encontrar o dinheiro e as pessoas para delas cuidar.

Depois das tentativas em diferentes locais, encontrou o Pio Socorro. Reuniu com os líderes da Associação de leigos e da comissão da cadeia em uma assembleia de benfeitores e colaboradores para administrar sua obra. Essa foi uma decisão audaz e profética. Implicava comprar um tear de seda e contratar a Guillaume Arnaud como mestre.

Chamaram esta nova aventura uma “Providência”: um lugar que fosse um lar para esses excluídos que estavam tendo uma segunda oportunidade e uma escola para a vida e para a fé.

O processo pelo qual chegou sua segunda vocação de ser um Defensor da Juventude sem esperança revela quatro movimentos da Espiritualidade que nos delegou. Primeiro entra no mundo dos marginados, logo os contemplam com atenção; em terceiro lugar, como os profetas, enche-se dos sentimentos de Deus de compaixão e empatia e, finalmente atua com decisão profética.
 
 
Não se contentando com simples gestos de caridade para solucionar uma necessidade imediata; busca uma solução definitiva a longo prazo.

De início, tenta localizar os jovens liberados da prisão nas escolas que já existiam, mas as portas dos “estabelecimentos respeitáveis” se fecham para eles. Estão dirigidos por adultos que não querem se responsabilizar por esse tipo de meninos de rua, consideram que têm o “delito em seu DNA” e que são “intransigentes”. Pe. Coindre não olha os meninos dessa maneira e acredita que Deus também não. Formula uma pedagogia baseada na confiança e nas possibilidades de seu batismo e de sua inata dignidade humana.

Hoje localizamos a iniciativa de Pe. Coindre entre as obras de justiça porque foi mais além da beneficência que ofereciam os “anjos de paz” e cortou pelas raízes um sistema injusto que necessitava ser transformado em luz do Evangelho. Sim, Pe. Coindre foi comovido por quem resgatava os jovens na prisão, mas se entregou na procura de soluções preventivas.

Criou uma Instituição para resgatar os jovens da ociosidade e ignorância, para mantê-los fora da prisão em primeiro lugar. Inspirado pela associação laical, ele, como Apóstolo da Esperança Cristã, fez uma contribuição única à reforma do sistema penal francês e às vidas das crianças detidas.

Direcionemos agora nosso olhar contemplativo fora de Lyon, para os povoados em que Pe. Coindre e sua equipe missionária predicam missões paroquiais. Começa neste momento a preocupação pela lamentável falta de estímulo familiar e governamental, posterior a evolução, das escolas primárias nos povoados.

As crianças de classe média nas cidades tinham ao menos algumas oportunidades de educar-se, mas as crianças do campo não tinham, eram normalmente recrutadas para as tarefas agrícolas, não podiam ler nem escrever. Onde havia escolas, os alunos sofriam a violência de mestres sem escrúpulos, com pouca educação e baixos salário.
 
 
Pe. Coindre começou a trabalhar com os párocos dos povoados para formar um sistema escolar baseado em fé e nascido de sua espiritualidade: olhar com os olhos de Deus as injustiças sofridas pelas crianças, sentir as batidas do coração de Deus por elas e atuar com decisão para realizar uma mudança no sistema. Fundou e impulsionou vários educadores de forma impressionante, a criar uma rede de escolas em povoados que tinham perdido a esperança por causa de sua fé vacilante ou da precariedade econômica. Com apenas cinquenta irmãos, a maioria dos quais tinha recrutado pessoalmente, abriu doze escolas em três anos.

Denunciar o mal e a injustiça e imaginar uma alternativa mais humanizada e cheia de esperança é o trabalho de um profeta. O Capítulo Provincial de 2017 dos Estados Unidos adotou uma declaração central: chamou a província para contemplar os que estão na periferia. Ao fazer isto, pediu aos Irmãos da Província e aos colaboradores leigos que seguissem o movimento espiritual de nosso fundador.

Não foi fácil para ele, mas, apesar das prisões de seus superiores para que abandonasse suas “pequenas obras” a favor do ministério sacramental, nunca elegeu entre uma coisa ou outra. Ele alimentou os dois fogos que o Senhor tinha acendido em seu coração apaixonado, mesmo que isto implicou consumir-se numa morte prematura e humilhante, para nada diferente daquela que foram testemunhas, choraram e proclamaram os discípulos amados de nossa anterior contemplação.
 
NOSSA CONTEMPLAÇÃO
 
Nesta contemplação observamos o Irmão Javier escrever a primeira linha de suas memórias. “Em 1817, o senhor Pe. Coindre, vendo que os hospitais e as prisões de Lyon se enchiam de meninos, tomou a decisão de fundar uma casa para recolhê-los e separá-los do perigo”. A partir dessa frase podemos voltar a aprender como contemplar a maneira de nosso Fundador que, inspirado na Escola Francesa de Espiritualidade, orou em dois movimentos, cada um deles com passos progressivos.
 
OLHAR com nosso coração:

1. Contemplação através da janela: olhar com atenção os jovens da periferia.
2. Empatia: pedir ao Espírito que coloque em nosso coração os sentimentos de Deus por aqueles a quem olhamos.
 
ATUAR com nossos dons:

1. Sair: entrar em seu mundo para encontrá-los cara a cara e falar com eles coração a coração.
2. Decidir: com imaginação profética, considerar como responder em colaboração entre laicos e religiosos.
3. Investir: comprometer tempo e dinheiro para por em movimento os dons das pessoas que apoiam a iniciativa.
  




3 - JEAN, VINCENT, LESPINASSE E STÉPHANIE


 
Para a terceira parte da contemplação o cardeal através da janela de nossa cruz, viajamos no tempo até 1818, em Lyon. Desde o rio Saona subimos por um sinuoso caminho para chegar ao bairro da Croix Rousse.

Chegamos a uma sólida muralha, ao lado do Forte de San Juan, que uma vez protegeu um grande monastério cartuxo, cujas terras foram divididas e convertidas em fazendas e negócios privados.

A parte da esquina mais próxima ao forte é nosso destino. Pe. Coindre estabeleceu ali um tear de seda, a pedra angular de seu sonho para os meninos encarcerados. Comprou a propriedade junto com seu pai a um comerciante de seda, dadas as possibilidades que ofereciam seus sete teares industriais, do tamanho de um quarto, com um equipamento ideal para que os meninos aprendessem o ofício da seda de Lyon.
 
 
CONSTRUIR UM SANTUÁRIO

A última linha do artigo 6 da Regra de Vida fala da nossa visão da “edificação da cidade terrena de tal maneira que tenha seu fundamento em Cristo e nele seja regenerada”. Estamos aqui para contemplar o primeiro estabelecimento inspirado por essa visão de uma cidade terrena regenerada em Cristo que o Capítulo Geral de 2006 chamou de “o Santuário de nossa Missão” .

Pe. Coindre nomeou este inovador Santuário no Pio Socorro, nome que faz referência a uma ajuda que provém ou está inspirada por Deus. Este nome é perfeito para resumir nossa espiritualidade em dois movimentos. A primeira palavra Pio - piedade, um adjetivo, nos descreve a relação com Deus.

A segunda palavra, socorro, o grito de uma pessoa necessitada, provoca nossa resposta. Nós, salvos, nos acercamos a outros para salvá-los. Agradecidos, damos o que recebemos. Cheios de fé, comprometemo-nos na tarefa.

Pe. Coindre queria que o Pio Socorro fosse uma Instituição Humana cujo nome revelasse sua origem divina, para que as crianças, adolescentes e jovens que ali morassem, pudessem perceber que Deus lhes enviava uma ajuda real, não apenas bonitos sentimentos, por meio dos colaboradores apaixonados e competentes que formavam parte de seu Corpo.

Permanecemos no Pio Socorro para olhar através de suas altas janelas os acolhidos que estão em seu interior e trabalham com seriedade em sofisticados teares, que recebem vida com uma esperança ruidosa.

Pe. Coindre os contemplam para logo descrevê-los à comunidade de Lyon e a seus referentes, em quem busca financiamento e apoio: “Meninos que, pela inflexibilidade de seu caráter ou a violência de sua inclinação ao mal, causaram ou causam ainda a seus pais grandes desgostos. Uns, de humor superficial e independente, não querem aplicar-se a nenhuma ocupação sedentária, e vagam pelos cais e praças, expostos a todas as desordens de malandragem e a todas as mentiras do roubo.

Outros, vítimas de uma conduta  semelhante, acabam de sofrer as penas que quiséssemos evitar a aqueles.

Trata-se de presos jovens que, depois de terem sofrido um tempo de reclusão mais ou menos longo, não encontraram nenhum emprego. Embora, mereçam a atenção especial e os cuidados particulares que lhes prestam há algum tempo para levá-los ao cumprimento de seus deveres”.
 
QUATRO JOVENS
 
Os investigadores do Centro Internacional Andre Coindre descobriram os nomes e histórias de alguns jovens, apenas adolescentes, os quais Pe. Coindre conheceu pessoalmente. Contemplamos-lhes com a ajuda dos rascunhos de um artista e de um retrato em miniatura dos arquivos municipais de Lyon.

Jean Corroi tinha doze anos quando seu pai, lenhador, morreu. Sua mãe, uma lavadeira sem recursos, os levou ao Padre Coindre para que pudesse acolhê-los. No lugar das aulas de nível primário, Jean e vários companheiros de sua idade se instruíam em leitura, escritura, cálculo e religião ao mesmo tempo que aprendiam a operar os teares.

Trabalhavam várias horas por dia, produzindo tecidos para vender. O dinheiro do trabalho era guardado numa conta bancária até que terminassem seus oito anos de formação, quando tivessem vinte. Desta maneira poderiam ter tanto uma formação quanto uma conta bancária no momento de sua graduação. Jean morreu de uma doença desconhecida antes de completar o seu contrato. O nome escrito no retrato está tomado de uma lista nas notas manuscritas do Fundador.

Vincent Briaçon tinha treze quando conheceu o Padre Coindre. Na cidade, Annecy, tinha um forte enfrentamento entre católicos e protestantes. Seu pai, serralheiro, era um protestante convencido que ameaçava e batia em Vincent, já que este queria abandonar a fé de seu pai para unir-se ao lado católico da família. Quando seu pai foi buscá-lo o esconderam por quatro horas dentro de um armário na sacristia da Igreja.
 
 
Ao final, o vestiram de menina para poder tirá-lo do povoado e transferi-lo para outros parentes, até que conseguiu chegar a Lyon onde o sacerdote lhe deu roupa e o levou ao Pio Socorro. Ali se encontrou com outros vinte meninos. Finalmente, a polícia rastreou o Vincent e o devolveu a sua família. Sua assinatura consta no formulário policial. Lespinasse. Apenas conhecemos seu sobrenome. O nome que acompanha o desenho é a letra manuscrita do Fundador.

O Padre Coindre escreve a respeito dele em suas cartas, numa delas se queixa de que ele gostava de se meter nos assuntos de todo mundo. Lespinasse era um tecedor experto. Ensinava os outros meninos e irmãos a trabalhar com os teares, tecnologia de ponta em 1818, mas era o oposto na disciplina. Uma noite fugiu do dormitório e esteve a ponto de ser expulso, mas o Pe. Coindre persuadiu os irmãos para que o mantivessem, o corrigissem e se acercassem mais a ele.

Stéphanie Simon era a mais jovem de quatro irmãs cujos pais morreram quando era criança. O Pe. Coindre conheceu as meninas quando era sacerdote coadjutor em Bourg. Seu tutor legal, um tio, não cuidava da pequena, então sua irmã maior que se encarregou dela, mas Stéphanie não queria ir à escola. Quando completou quinze anos já tinha assistido a cinco escolas diferentes. Nada funcionava, assim que escreveu para o Pe. Coindre em busca de ajuda. A assinatura que temos provém de uma carta que lhe escreveu, em que lhe conta uma mentira para manipulálo e assim abandonar a escola uma vez mais para ser uma aprendiza.

Duas de suas irmãs, que temiam por sua virtude, se aborreceram muito quando a irmã cedeu diante de “Fannie” e a deixou viver sem supervisão na parte superior de uma loja de roupa. O Pe. Coindre pediu para uma jovem florista que a recebesse e lhe desse trabalho.
 
NOSSO OLHAR ATENTO
 
Ao contemplá-los, pedimos a graça de ver estes adolescentes como Pe.Coindre e Deus o fizeram. Em vez de estancar-se em seu comportamento indisciplinado, desobediente e ambíguo, ou em sua incultura e imaturidade, ele viu suas possibilidades, às que chamou de “nobres esperanças”. Ao trabalhar com eles, descobriu que o melhor a fazer era evitar levar pessoalmente suas manipulações e, no lugar disso, contemplar suas feridas. Ao fazê-lo, aprendeu que a capacidade que tinham de resistir à dor era um indicador de seu valor mais profundo.

Nossa primeira contemplação foi das feridas de Jesus. O exemplo de Pe. Coindre nos mostra que ele não ficou nisso. Para nós, educadores,  contemplamos as feridas e os sentimentos de Jesus inevitavelmente nos leva a voltar nosso olhar para os gritos dos corações dos jovens: daqueles espiritual e materialmente recusados, daqueles com pais distantes por causa da morte ou da indiferença, daqueles que fogem da violência, daqueles furados por seringas, dos jovens dos quais as imagens cristãs são símbolos superficiais, nomes de marcas mais que ícones de profundas realidades interiores.

A fase ativa de nossa Espiritualidade necessita desenvolver-se em Instituições onde possamos salvar os Jean Corrois de hoje antes que percam a esperança e fiquem inválidos. Podemos encontrar formas de resgatar as Stéphanies, alérgicas às Instituições, que conheceram mais indiferença do que amor, assim como os Lespinasses feridos pelo contato com delinquentes? Podemos receber os Vincentes que fogem de uma religião que os ameaça e manipula, ou que não freqüentam “estabelecimentos respeitáveis”? Nossa Espiritualidade, vivida apropriadamente, nos enviará por autovias e por pequenos caminhos a contemplar os jovens necessitados de um santuário que lhes permita sanar e lhes brinde com uma estrutura segura para crescer.
 
AS CINCO FERIDAS
 
A Regra de Vida nos mostra cinco feridas dos jovens para que as contemplamos: ignorância, abandono, descristianização, miséria e injustiça.

A ignorância é uma ferida intelectual. Jean Corroi pertencia a geração frustrada pelas convulsões da guerra revolucionária. Sem escolarização, sem pai e com uma mãe dedicada a tempo integral a um trabalho servil, analfabeto, sem capacitação e por tanto vulnerável a todo tipo de exploração. Hoje a ferida da ignorância marca um número crescente da humanidade sem escolarização, os que abandonaram a escola e que são vítimas de sistemas de educação deficientes.

O abandono é o fruto da indiferença. Cria feridas afetivas como o distanciamento de Stéphanie, que era uma carga para seu tutor e um motivo de brigas entre suas irmãs. Faminta de afeto, não tinha nenhum lugar a que pudesse chamar de casa e nenhuma capacidade para fazer amigos, exceto por meio da manipulação e do flerte.

Em seu discurso de agradecimento do prêmio Nobel, Elie Wiesel, que passou sua infância em campos de extermínio nazista disse: “A indiferença, para mim, é o resumo do mal. O oposto ao amor não é o ódio, mas sim a indiferença. O contrário da arte não é a feiura, é a indiferença. O oposto da fé não é a heresia, é a indiferença. E o oposto a vida não é a morte, mas sim a indiferença. Porque, pela indiferença, um morre antes de morrer realmente. Estar na janela e ver pessoas serem enviadas a campos de concentração ou serem atacadas na rua e não fazer nada, isso é estar morto”.

A descristianização é uma ferida espiritual que Pe. Coindre descobriu nos quatro adolescentes e que os incapacitava; com a possível exceção de Vincent, para quem seu retorno ao catolicismo, em oposição a seu pai constituiu uma parte importante de sua identidade. Proibição da religião, que tinha sido um grito de guerra para os revolucionários, deixou crianças sem uma bússola espiritual ou moral. A geração atual, normalmente sem educação religiosa em casa, mantém-se afastada da Igreja como reação diante da hipocrisia religiosa, diante dos pastores que apenas sabem criticar e diante dos abusos do clero. Muitos jovens crentes sentem a ferida de ser ridicularizados por seus companheiros.

A descristianização é a irmã gêmea do materialismo, um sedutor fascinante sem profundidade nem convicções.

A miséria é uma ferida material. A palavra tem também uma conotação emocional de infelicidade ou tristeza.

Sentimo-nos miseráveis por muitas coisas, como a desgraça, a enfermidade ou o fracasso. O texto original da Regra está em francês, idioma no qual “miséria” tem um significado de pobreza material equivalente à indigência. Jean Corroi e sua mãe estavam reduzidos à miséria. Hoje a pobreza extrema pode não ser patente em alguns países, mas em todas as partes vemos como crescem as taxas de mortalidade infantil e como se expande dramaticamente a faixa entre ricos e pobres. As crianças pobres estão feridas pela desnutrição, o desemprego, a migração, o abandono e, como o próprio Jean, pela morte precoce.

A injustiça é uma ferida social que vemos supurando no sistema de prisões de Lyon de um modo opressivo para as crianças. Outro flagrante de injustiça social com as crianças, que Pe. Coindre buscou combater, tanto no Pio Socorro quanto nos povoados onde abriu escolas, era a praga do trabalho infantil, que privava a juventude analfabeta de seu direito de educação e de esperança de um futuro produtivo.
 
A FERIDA DA INJUSTIÇA
 
Dessas cinco feridas, a mais difícil de sanar é a da injustiça. Em nossos duzentos anos de história, realizamos alguns esforços heroicos para responder as grosseiras injustiças. O Ir. Maurice Harstein, um aluno do Colégio São Luís, instituição que sucedeu o Pio Socorro, documentou o que aconteceu com ele, um menino judeu, durante a ocupação da França pelos nazistas em 1942.

Aos oito anos de idade encontrava-se na fila com sua avó para subir a um ônibus secretamente destinado a Auschwitz, quando uma família amiga o ajudou a fugir e os levou a Lyon. Outro contato familiar, que vivia perto do colégio, pediu ao Irmão Vital Freycenet, o diretor, que recebesse a Maurice para escondê-lo e educá-lo. Esse ato de desobediência civil de Vital salvou a vida do menino.
 
 
 
 “Ao aceitar-me, escreveu o Sr. Karstein, “o Irmão Vital assumia um grande risco na cidade de Lyon ocupada; Klaus Barbie  estava a cargo da Gestapo em Caluire. Se tivessem me descoberto, o Irmão Vital também teria sido confiscado. Ele era consciente disse desde o princípio.

Lembro-me comovido do quanto senti o dia da sua morte, em fevereiro de 1945, quando nós, os estudantes, íamos passando em grupos para ajoelharmos junto a sua cama e pegar em sua mão. “Todos nós gostávamos muito dele principalmente pela sua ajuda durante aqueles tempos difíceis”.

Com base nos testemunhos de Hartstein a respeito do que lhe tinha acontecido, a associação francesa para o reconhecimento dos Justos Entre as Nações incluiu o Irmão Vital em seu Livro de Guardiões da Vida em dezembro de 2002. O objetivo desta honraria, como indica o certificado de reconhecimento, é preservar a memória de seu valor e justiça para as próximas gerações.

A história do Irmão Vital nos abre os olhos às possibilidades heroicas de trabalhar pela justiça como educadores. Ele era um educador cem por cento que dedicou cinqüenta e três anos de sua vida ao Colégio São Luís como inspetor, professor e diretor. Tanto ele quanto os outros Irmãos que nessa época esconderam crianças em escolas da França não duvidaram a hora de arriscar no caminho da justiça, num tempo em que circulavam máquinas de guerra e trens da morte.

Contemplamos as cinco feridas dos jovens citadas na Regra de Vida e refletidas em nossa história. O importante em nossa Espiritualidade é a afirmação de Jesus de que as feridas das crianças, adolescentes e jovens são inseparáveis de suas próprias cinco feridas. Certamente, não requer esforço acrescentar uma linha a mais às boas aventuras que expressa em Mt 25: “Cada vez que contemplou as feridas dos últimos entre meus irmãos, contemplou as minhas”.

Longe de tratar-se de um exercício inútil, nossa contemplação das feridas das crianças é para eles um sinal de esperança: “A final alguém se preocupa com o que me acontece!” Por fim alguém me escuta!” “Encontrei um doutor que me pergunta o que me dói!”

Carolyn Byers Ruck, vítima de abuso infantil, nos diz como é importante reconhecer as feridas de uma criança: “Tinha apenas quatro anos quando um adolescente contratado para os trabalhos do campo tentou abusar de mim””. Milagrosamente escapei e contei para meu pai que tomou três decisões importantes esse dia: escutou-me, acreditou em mim e atuou. “Eu fui uma das afortunadas, pude ter uma infância”. Jesus quis entender o sofrimento do jovem epilético do Evangelho de Marcos, pelo que se tomou tempo para escutá-lo sem assustar-se com as histórias que contava a seu pai. “Traga-o... Faz quanto tempo que acontece isso?” Colocou-o no centro de sua oração as convulsões do menino e logo repreendeu os seus discípulos por não fazerem o mesmo.

Na oração do Senhor, o Pai Nosso, Jesus ensina a seus discípulos como pedir a Deus o que eles necessitam: pão diário, perdão, libertação do mal. Na história evangélica do menino epilético, ao contrário, temos um interesse particular em aprender o que está tentando ensinar a seus discípulos a respeito da oração. É isto: como somos discípulos ativos no mundo das crianças, adolescentes e jovens, uma grande parte de nossa oração deve ser a contemplação de suas feridas e vícios. Nossa Espiritualidade, que começa com a contemplação das feridas de Jesus, funciona com o combustível que recebemos de Deus: a empatia pelo sofrimento da humanidade.
 
CONTEMPLAÇÃO EM TRÊS ETAPAS
 
A oração pelas dores das crianças, adolescentes e jovens que Jesus nos propõe nesta história tem três etapas diferentes:

1. Na janela, contemplamos seu sofrimento pessoal e o mal social que os fere.

Em nosso lugar de oração, pedimos receber a graça de dois tipos de empatia: sentir uma conexão profunda com seu sofrimento e experimentar as mesmas emoções que Deus sente por eles.

Na “cidade terrena” onde os encontramos, transformamos nossa oração em ação: ao silenciar nossa voz e nossas defesas para escutá-los ativamente, e ao entrar em sua vida e defendê-los dos males que os ferem.

Talvez este esquema pareça uma receita estéril, mas há uma destacada pintura de Caravaggio que pode dar-lhe um pouco de vida. O artista pinta uma cena muito humana, sem traços ou enfeites místicos: Jesus ressuscitado contemplou a Tomás e compreende a falta de fé apostólica e seu distanciamento da comunidade.

Então, na mesma cena, Caravaggio representa uma dupla contemplação: a da ferida de Jesus e a da incredibilidade de Tomás. O traje andrógeno de Tomás expressa a desgraça que sente por sua negação em crer.

Na cena, Jesus não faz discriminações, mas encontra-se com quem dúvida da sua própria situação. Apresenta sua ferida com uma honra, parte de sua identidade; conduz a mão de quem dúvida para que a toque.

O jogo de olhares dos três homens demonstra a dinâmica da contemplação: sentir curiosidade, surpreender-se, maravilhar-se e entrar na intimidade. A atmosfera está carregada de uma cintilante luz que, de cima, desce um brilho da Ressurreição.
 
 
Na cena que segue a este Evangelho, Jesus se dirige em primeiro lugar a Tomás e depois a nós: “Felizes vós que, sem ter visto com os olhos, contemplastes com vosso coração e descobristes que a vida nova passa através de uma ferida, a vossa e a dos demais”.

Esta obra mestra de Caravaggio nos oferece um modelo para nossa contemplação da humanidade ferida.

Coloquemos aos alunos e a todos que atendemos normalmente impulsivos no lugar de Jesus. Nós somos quem duvidamos deles. Não acreditaremos neles a menos que toquemos suas cicatrizes e contemplemos a ferida de seu coração.

Aceitar as crianças e adolescentes normalmente implica superar nossa tendência à exclusão quando se comportam mal. Implica ir mais adiante das condutas que nos causam repulsão. Nossa Espiritualidade pode nos ajudar a evitar defini-los segundo seu comportamento. O ponto de vista de Pe. Coindre era evitar tomar pessoalmente as posturas autossuficientes e, ao contrário, contemplar suas feridas. Os comportamentos negativos e as exclusões são as formas com as quais os adolescentes expressam seu sofrimento. Aceitar um aluno como é, não significa aceitar seu mau comportamento; o corrigimos, mas ao mesmo tempo tentamos descobrir sanar a ferida que esconde.
 
 


4 - O IRMÃO ALBERTINUS


 
Na primeira contemplação, fomos testemunhas da “manifestação do Sagrado Coração na Cruz” através dos olhos dos discípulos amados João e Maria Madalena. Na segunda, nos unimos ao Irmão Javier para olharmos Pe. Coindre em sua contemplação dos jovens que enfraqueciam na prisão-hospício de l’Antiquaille e nos povoados do Alto Loira. Na terceira, contemplamos os jovens feridos.

Esta quarta nos permite olharmos o coração de um Irmão que exerceu o cargo como Superior Geral54 durante muito tempo. Não é a duração de seu mandato o que nos convida a conhecê-lo melhor, mas sim a profundidade teológica com a qual conduziu sua vida espiritual.

Todas as circulares que escreveu o Irmão Albertinus durante seu mandato formam uma sequência que aprofunda na Espiritualidade do Corpo Místico, um tema no qual injetou cada aspecto de nossa Vida Religiosa e Apostólica.
 
 
Foi o único Superior Geral que adotou um plano global e uma visão Espiritual, tanto Teológica quanto prática, para todas suas circulares. A coleção das mesmas é uma notável síntese que devemos ter presente ao refinar nossa Espiritualidade de cara a um novo século de vida.

No primeiro capítulo da Regra de Vida, cujo principal autor foi o Ir. Maurice Ratté, faz uma alusão, no terceiro artigo, à pedra angular espiritual do Ir. Albertinus: “Com todos os homens, somos chamados à Santidade segundo nossa particular Vocação no seio do Corpo Místico”.

A Regra se refere novamente ao Corpo Místico no Capítulo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, nesta oportunidade não em relação a nossa Santidade, mas sim referindo a nossa participação em seus sofrimentos.
Ir. Albertinus expressou sua aguda consciência espiritual de estar unido ao Corpo de Cristo Ressuscitado, não apenas com suas palavras, que são abundantes, mas sim com a mesma história de sua vida. Contemplemos ambas.
 
O EXÍLIO
 
Nos tempos em que o governo maçônico da França estrangulava sistematicamente a liberdade da educação católica, foi aprovada em 1901 a chamada “lei das associações”. Os Institutos Religiosos não podiam continuar existindo na França sem um reconhecimento oficial especial. A lei aplicou-se com rigor inédito e todas as petições de autorização foram recusadas sem possibilidade de apelar. Os Irmãos, então, tiveram duas alternativas: abandonar a França e partir para o exílio ou abandonar sua vocação e dirigir Escolas leigas estaduais. O Ir. Albertinus, professor no noviciado de Paradis, com 23 anos de idade, não duvidou um instante: “Deixarei a França e salvarei minha vocação”.

No início de 1903 o governo ordenou aos Irmãos desocupar Paradis. Pouco tempo depois, chegou a temida visita do oficial para realizar o inventário tendo em conta o leilão público de liquidação. O Ir. Austin, que era postulante nesse momento, aporta alguns detalhes interessantes: “Tínhamos tirado apressadamente parte do mobiliário, que escondemos em celeiros pertencentes a amigos nossos no povoado.

O mais difícil de salvar foram os bancos da capela, pois estavam feitos de nogueira maciça”. “Os alunos internos foram enviados a casa. Um bom número de postulantes e noviços já tinha voltado para suas famílias, pois seus pais nunca considerariam dar-lhes permissão para o exílio. O resto de nós, por volta de vinte, fomos postos sob o cuidado do Ir. Albertinus para nos prepararmos para o exílio na América. Ao aproximar-se da data da partida, deu-nos permissão para despedirmos de nossos pais e amigos. O mesmo Ir. Albertinus foi à casa de sua família no Alto Loira”.

Era muito normal que sua família usasse alguma estratégia para que ele desistisse de deixar a França. “É muito triste”, repetia sua irmã Agustine, “ver você partir assim”. Todos lhe diziam: “Facilmente encontrarás um lugar aqui, fique conosco”. Mas todos esses esforços, em vez de inquietá-lo, o faziam rir. Sua resposta às súplicas de sua própria carne e sangue eram: “Os meninos que viajam comigo não tem nenhuma dúvida em sacrificar tudo. Eu sou como seu pai, assim que devo dar exemplo e ser seu modelo”. “E retornou determinadamente a Paradis”.

O exílio dos Religiosos da França era a solução final do governo maçônico, depois que as leis onerosas de regulamentação, de impostos, de persecução e de serviço militar obrigatório não puderam quebrar a firme resolução dos Institutos de perpetuar a educação fundada na fé.
 
 
 
Mais de cinquenta Congregações e Institutos na França foram dissolvidas e suas propriedades confiscadas, incluindo as Igrejas. Cerca de 30.000 Religiosos e Religiosas abandonaram o país 58. De modo que o Ir. Albertinus e seu grupo de vinte, que deixaram sua terra natal em 1903, eram um microcosmo dentro de uma caravana multidirecional de Religiosos Educadores que elegeram primeiro sua vocação e depois sua pátria.
“Quando voltamos”, continua Augustin, “tiramos o hábito e colocamos roupas civis que tinham nos comprado em Le Puy. Estávamos todos vestidos com cores diferentes, com predomínio do preto. O Ir. Albertinus vestia um terno cinza que era extremamente grande. Todos sabíamos que não tinha ideia de como comprar roupa, nesse dia e nem depois.

Éramos oito postulante que íamos a Metuchen, seis noviços, dois escolásticos e dois Irmãos jovens”.
“Devíamos partir de El Havre no dia 21 de março de 1903”. Pegamos o trem de Le Puy a Paris, onde ficamos dois dias na escola dos Irmãos.

Visitamos a cidade e peregrinamos a Montmartre. O Ir. Albertinus ficou conosco, mesmo tendo um primo em Paris que ele queria muito visitar.

Algum tempo depois recebeu uma carta deste primo que dizia: “Teria gostado muito se pudesse ter encontrado com você... lidera um grupo de refugiados, como o verdadeiro Moisés que guia seu povo pelo deserto à Terra Prometida para escapar da ira do Faraó. Você, querido primo, escapou do ódio de pessoas muito mais malvadas do que o Faraó”.

“Depois de nossa visita a Paris”, continua Austin, “pegamos o trem para El Havre e abordamos o navio a vapor La Champagne, um navio que, comparado com o United States ou o Queen, parecia minúsculo e não tinha nenhuma oportunidade de ganhar numa corrida transoceânica. Demoraríamos nove dias para chegar a Nova York”.

“Tivemos um bom começo; o Ir. Albertinus manteve uma atitude encantadora durante toda a travessia sem deixar que ninguém notasse sua dor ao ser deportado ao exílio. Em 31 de março finalmente atracamos em Nova York, onde o Ir. Stanislas da província dos Estados Unidos estava nos esperando para conduzir-nos a Metuchen”.

O biógrafo de Ir. Albetinus percorre a história60. Imediatamente, o jovem francês começou a estudar inglês sob a direção do provincial. Desde o início os recém-chegados se misturaram bastante com os postulantes e noviços americanos. O Ir. Albertinus era o Mestre e Diretor de todos.

Desde o princípio, entregou-se generosamente à tarefa da formação e não economizou nenhum esforço para fazer a vida agradável em seu grupo e entre os formandos americanos.

Como Mestre dos Noviços também cuidava dos Irmãos professos da casa. Regularmente tinha entrevistas com os jovens em formação; também era consciente da importância de dedicar tempo para escutar os Irmãos mais velhos. Destinava todo o tempo que cada um necessitava para compartilhar suas dificuldades e queixas.

Escutava com empatia e oferecia bons conselhos. Nem sempre é fácil manter a paz entre os diversos membros das comunidades grandes, como Metuchen, embora Albertinus tinha um dom para isto.

Os anos da Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, transcorreram pacificamente em Metuchen. Não obstante, a princípio, algumas discussões ameaçaram dividir os Irmãos. Albertinus, que tirava o melhor de si no manejo de situações difíceis, convenceu a todos de evitar falar a respeito das controvérsias políticas da guerra, o que foi judiciosamente acatado pela maioria para manter a paz na comunidade.

No ano de 1921 marcou o centenário da fundação do Instituto. Os Irmãos realizaram uma Celebração Privada no Noviciado, no dia da festa do Sagrado Coração de Jesus. No domingo seguinte dignitários Eclesiais acudiram desde distintos e distantes lugares para unirem-se aos Irmãos na celebração do Glorioso Centenário do Instituto.
 
 
A história do exílio de Ir. Albertinus e sua liderança espiritual é uma etapa decisiva, inclusive legendária, na viagem espiritual do Instituto.

Formado em Chirac, Paradis e Metuchen, ele cresceu quando soltou as asas no Instituto. Depois de seis anos como Provincial, em 1931 foi eleito para o Conselho Geral, com sede em Renteria, no País Vasco espanhol.
Seis anos mais tarde, o Capítulo Geral o elegeu para o cargo de Superior Geral, que desempenhou com carisma e energia durante os tempos mais difíceis.

Seus quinze anos à frente do Instituto coincidem com a era fratricida e desmoralizante da Guerra Civil espanhola e da Segunda Guerra Mundial, durante a qual o Conselho Geral ficou atracado em Paradis.
Na França e Itália a luta se desenvolvia com amargura e desesperança. Muitos Irmãos franceses jovens foram recluídos na Alemanha; outros cinquenta morreram; França estava ocupada. Os oficiais nazistas instalaram seus quartéis em nossos edifícios de Paradis. As comunicações com o Instituto estavam cortadas. Reinava o desalento.

Por estar impossibilitado de viajar, Ir. Albertinus ficou ironicamente exilado dentro da França. Este segundo desterro o separou dos Irmãos de quatro continentes, que estavam chamando-o para motivá-los e unilos.
Um pouco antes de 1942 que voltasse para cruzar o Atlântico e aliviar a ansiedade dos Irmãos, tanto na América do Norte como na América do Sul.
 
UMA ESPIRITUALIDADE PROFÉTICA
 
A carta que tinha recebido em 1903, no começo de seu primeiro exílio, volta agora em nossa mente: “Você é o verdadeiro Moisés...” Não era aquelas palavras de seu primo chamando-o de profeta, em última instância, um chamado de Deus?

Quando anunciou “deixarei a França e salvarei minha vocação”, não era tanto seu estado de vida o que estava em perigo, mas sim sua identidade como profeta. A Terceira República Francesa exilava os Institutos educativos porque eram perigosos para com seus valores.

Mais importante ainda, gostariam da separação de Igreja e Estado e o desejo do governo de dirigir um sistema escolar baseado unicamente nos princípios republicanos. Ir. Albertinus não podia conceber uma educação laica e lutaria pelas escolas católicas e tudo o que tivesse que ver com a fé. Não podia ver-se como instrutor numa escola sem fé ou como promotor de uma cultura secular. Resistiu e lutou contra exilar a Deus e a formação espiritual da escola.

Ao contemplar o Ir. Albertinus como um profeta de fins do primeiro século de nosso Instituto, temos muito que refletir a respeito de como desenvolver nossa identidade de profetas ao final do segundo. A única ordenança do Capítulo Geral de 2012 foi o chamado que Deus nos faz ser profetas: “Que todo o Instituo – Irmãos, Colaboradores na missão, comunidades locais e educativas – se comprometam, com renovada determinação e em espírito de conversão constante, a destacar a dimensão profética de sua missão”.

Em seu informe o Capítulo Geral de 2018, o Reverendo Irmão José Ignácio Carmona referiu-se a nossa missão profética às crianças, adolescentes e jovens marginalizados, que foi um tema recorrente em suas circulares. O mesmo Capítulo, conduzido pelo Reverendo Ir. Mark Hilton, nos orientou para a história de Emaús como caminho a uma Vida Religiosa interpelante. Sua ordenança insistiu na formação continua e em colaboração em volta do nosso Carisma e numa presença significativa diante das crianças, adolescentes e jovens, para manter nossos corações ardendo.

Em uma reflexão a respeito de nossa Espiritualidade, não é o lugar apropriado para explorar as decisões práticas que nos permitam viver essa ordenança em nossa missão. Com esta finalidade, o Capítulo finalizou um processo de discernimento. Este é o lugar de considerar os dons de fé e oração que devemos pedir para ser capazes de imaginar e aceitar nossa vocação profética. O Capítulo Geral disse que nossa missão, será de nascer de uma profunda experiência de Deus e da consciência de que Deus está realmente ao nosso lado.
 
SOMOS A COMPAIXÃO DE CRISTO
 
Por sorte temos o Ir. Albertinus para ajudar-nos a ser profetas. Ao buscar uma mensagem que pudesse trazer consolo e unidade ao Instituto em tempos de ruptura e caos, ele se nutriu de São João Eudes e da Escola Francesa de espiritualidade para poder desfrutar no Instituto a rica teologia do Corpo Místico de Cristo.

Há dois pilares de tal teologia que podem ajudar-nos a adquirir uma espiritualidade profética. O primeiro é que nós, em toda nossa diversidade, somos o único Cristo. Albertinus queria que entendêssemos isto: na maravilhosa variedade de dons no Instituto e na Igreja, encarnamos o corpo de Cristo depois da ressurreição. Somos uma prolongação espiritual do corpo ressuscitado de Cristo: “Por meio de um divino e inefável vínculo estamos unidos com os demais e com a Cabeça Divina do Corpo inteiro”.

Ele ficou fascinado ao descobrir que Cristo tem necessidade de nós como seus membros, que rezam e atuam no mundo. Cristo ressuscitou em nós, fora de nós não existe Cristo ressuscitado. É um profundo mistério e um tema inesgotável de meditação. Que Jesus salve as crianças, adolescentes e jovens dependem das orações e ações que nós, como seus membros, realizamos.

O ponto fundamental da imagem do Corpo Místico é que nos revela o plano de Deus para unificar uma incrível diversidade. Acolher esta grande variedade no círculo interno de nossas equipes de missão é um elemento essencial de nossa Espiritualidade. Nosso Instituto tem uma missão: a Evangelização por meio da educação das crianças, adolescentes e jovens . Durante a época de Ir. Albertinus essa missão era responsabilidade quase exclusiva dos Irmãos. Hoje, ao contrário, a responsabilidade de nossa missão é compartilhada com um corpo místico de colaboradores de muitos estados de vida e afiliações Religiosas. A incorporação no Corpo Místico de Cristo significa que todos estão incluídos, não apenas numa missão, mas também em uma Espiritualidade comum.

Ir. Albertinus achou coragem profética para separar-se de sua pátria. Mais adiante de nossa missão em relação às crianças, adolescentes e aos jovens, seu exemplo nos convida, como cidadãos adultos, a escolher a evangelização antes do patriotismo. Nos envolvemos no diálogo político de nossa nação como vozes dos valores do Evangelho, muito mais que como membros de um partido político ou movimento. Nossa primeira cidadania é nossa permanência ao Corpo de Cristo. O exemplo de Ir. Albertinus também nos chama a resistir diante de falsos valores do secularismo e do materialismo guiado pelo consumo, que é tão
poderoso em nossas democracias.
  
 
Além da unidade como Corpo de Cristo, há uma segunda verdade para valorizar nas circulares de Ir. Albertinus: assim como nossos membros físicos, nossa mente, coração e vontade, são intrínsecos e não atuam de maneira independente, do mesmo modo que cada um de nós. Cristo apenas sente compaixão por meio de nós, seu corpo na terra é o nosso.

Um dominicano irlandês, Donagh Oshea, expressa esta verdade com uma frase muito simples: “Quando Jesus diz “eu”, de algum modo também estamos na cena”.

De que parte do Corpo somos membros? Jesus foi conhecido durante toda sua vida como um profeta65. A essência de um profeta é sentir e falar em nome de Deus. Como profetas, nossa espiritualidade do Sagrado Coração nos conecta com a vida emocional de Deus encarnado em Jesus, que agora ressuscitado permanece em nossos corações.

Tomar essa perspectiva significa que, quando oramos, não deveríamos imaginar-nos caminhando ao lado ou atrás de Jesus. Ou adorá-lo como um ser separado de nós ou distante. Ou como se alternativamente entrássemos e saíssemos de sua presença. No lugar disso, queremos sentir-nos presos no ministério mesmo de estar conectados ao Coração de Jesus ressuscitado.

O tipo de oração profética que o Capítulo Geral de 2012 propõe é aquela que “nasce, pois, da proximidade de um Deus cheio de compaixão que padece (sofre) com seus filhos e filhas que sofrem” devido à distância que os separa Dele. Para orar como autênticos discípulos do Sagrado Coração de Jesus, membros do Corpo de Cristo, conectados de coração a coração com Deus, necessitamos pedir um consciência profética que nos permita sentir como Deus sente. A ação surge depois.

Como batizados, membros do Corpo de Cristo, assumimos a espiritualidade da janela de nossos antepassados. Imploramos aos discípulos amados e ao nosso Profético Fundador que nos dêem exemplo e força, assim como a nossos Irmãos Javier, Ir. Albertinus e Ir. Maurice; para que nos mostrem como fazer crescer nossos corações até ser como os seus, enquanto continuamos a contemplação que eles puseram em movimento perpétuo.
 
PEDIMOS A JESUS SER A PRESENÇA HUMANA DE SEU CORAÇÃO DIVINO, CHEIOS DE EMPATIA E PAIXÃO PELA HUMANIDADE FERIDA.
 



ORAÇÃO DESDE O DESEJO PROFÉTICO


Senhor, tu viras teu rosto para a humanidade e teu coração sente por ela.

Dependes de nossa voz e coração humano para expressar teus sentimentos.

Geração depois de geração, tu pões tua voz nos profetas que escolhes, que sentem como tu sentes, para expressar a agonia silenciosa, para dar voz aos pobres desapossados, para denunciar as riquezas do mundo.

Quando nos chamas a profecia queres que permanecemos em oração, na interseção onde cruza o teu coração e o nosso. Queres verter teus sentimentos em nossos corações.

Ajuda-nos a entender que teu coração está certamente cheio de sentimentos, que tu és mais sensível emocionalmente que o mais sensível de nós. Quando te comover e te afetar o que acontece em nosso mundo e quiseres atuar, abre nossos corações e modela nossas palavras para que atuem em teu nome. Dai-nos um coração para falar, não do que nós sentimos, mas sim do que guardas em teu coração.

Veneramos-te por tua ternura amorosa. E teu amor não está cheio de emoção? Expressa, por meio de nós, não apenas teu amor pelos que estão perdidos, mas também tua ira contra o mal, teu júbilo e a angústia de tua dor.

Para sempre, oh Senhor, quiseste envolver-te emocionalmente com a história humana, como toda a dor que pudesses implicar e teu coração.

Que nossa vergonha de nossas próprias emoções nunca te impeças de mover nosso coração ou usar sua voz. Que possamos, como teus profetas para esta geração, ser suficientemente livres para deixar-te fazer por meio de nós o que quiseres.

Com que frequência, Senhor, nos dissestes: “Meus caminhos não são vossos caminhos, e meus pensamentos não são vossos pensamentos”.

Ensina-nos teus caminhos. Ajuda-nos a identificarmos, como tu o fazes, com o gemido constante da humanidade ferida, assim como com suas alegrias e esperanças.

Sintoniza nossas emoções com as tuas. Faze-nos profetas capazes de transformar tuas preocupações e angústias em nossas próprias preocupações e angústias.

Conecta-nos contigo de coração e faze-nos capazes de vibrar conforme o ritmo de tua raiva com os arrogantes e de tua amorosa compaixão com os pequenos.


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